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terça-feira, 25 de outubro de 2011

A força que as Palavras (não) têm

Por todo o lado se ouve falar com frequência na Força das Palavras. Alguns descrevem-na até como superior à força física, das acções e das armas, tendo em conta o impacto avassalador que podem provocar, e a profundidade com que nos podem tocar cá dentro. Dizem que as palavras voam mais alto do que os pássaros e ferem mais do que punhais, que têm a leveza do vento e a força da tempestade”. Chegam a ser tão fortes que conseguem dar corda às ideias, derrubar barreiras, salvar vidas e até transformar o mundo.

As palavras são de facto capazes de tudo isso. Mas elas não têm força. Na verdade, não têm nada. São ocas, vazias por dentro. Isoladas, são como breves sombras, conceitos vagos e indeterminados sem qualquer sentido para além do gráfico ou do fonético. A força delas reside no conteúdo, mas o conteúdo – ou seja, o significado – não lhes pertence inatamente, ele é apenas emprestado por nós.

As palavras nasceram para serem preenchidas. Elas são as roupas que atribuímos ao pensamento, que ao fazer o seu percurso até ao momento em que é exprimido, não deixa de passar pelo guarda-fato, que o corporiza e lhe dá forma. As palavras funcionam, assim, como o invólucro em que o pensamento vai embrulhado, são a casca da mensagem que queremos transmitir, a sua face visível para quem está de fora. Por isso dizemos que a força reside nelas, quando na verdade o seu recheio é ditado pela nossa subjectividade: a mesma palavra, a mesma frase, o mesmo discurso, ganham um significado diferente conforme quem os profere e quem os ouve, porque a força das palavras provém exclusivamente da entoação e da convicção que imprimimos, da forma como somos capazes de as manejar e arremessar, e da conotação e do sentido que cada um lhes dá ou reconhece.

As palavras não têm força própria. São neutras. Dizer isto não é diminui-las, nem ao seu valor, muito pelo contrário: se formos a ver, a sua beleza reside precisamente na sua neutralidade e na sua subjectividade, e daí o seu carácter camaleónico e a plasticidade que têm para poderem ser tudo o que nós quisermos. Nós é que as tornamos grandes ou pequenas, gordas ou magras, fortes ou fracas, felizes ou infelizes, suaves ou dolorosas. Considerá-las como tendo força própria, seria amarrá-las aos seus significados, tornando-as mais rígidas, e consequentemente, menos ágeis e mais pobres. Seria assim se elas fossem um fim em si mesmas, mas são apenas um meio, e como tal, são mais livres. A liberdade é a única qualidade que têm de inato.