“Primeiro estranha-se, depois
entranha-se” – Fernando Pessoa
Num mercado cada vez
mais globalizado e especializado em todo os tipos de produtos, as inovações
científicas e tecnológicas sucedem-se à velocidade da luz, e o que hoje é o
último grito da moda, amanhã jaz no baú das antiguidades. Cada novo modelo
torna o anterior desactualizado, e para cada nova invenção se pergunta se os
produtos e técnicas comercializados até então, mesmo os mais tradicionais ou
considerados insubstituíveis, ainda terão viabilidade, ou se o seu espaço na
vida das pessoas tem os dias contados. Foi ao abrigo destas leis do comércio que
o computador substituiu a máquina de escrever, o DVD substituiu o VHS, o CD substituiu
a cassete, a pen substituiu a
disquete, e, hoje em dia, o formato digital ameaça destronar todos estes
suportes físicos ainda utilizados. Por isso se questionou se a Rádio terminaria
com o surgimento da Televisão (video killed the radio star), ou se esta ainda terá futuro com o crescimento exponencial
da Internet.
Recentemente, tem-se
discutido se o desenvolvimento de tecnologias como o kindle ou o ipad poderão
determinar a extinção dos livros em formato físico (a amazon, uma das maiores plataformas de comércio electrónico do
mundo, vendeu, em 2011, mais e-books do que livros em formato físico),
ou se ambos poderão coexistir no mercado. Pessoalmente, considero que não se
deve menosprezar as enormes vantagens que os e-books no geral dispõem face aos livros tradicionais, tais
como a disponibilidade de descarregamento, a praticabilidade ao nível do
transporte e armazenamento, os menores custos de produção que resultam num
preço mais económico, a maior facilidade por parte das editoras na actualização
e correcção de gralhas, entre outros, todos argumentos de peso que já começaram
a pôr em causa o monopólio dos livros em papel. Porém, a todos estes há sempre
um argumento politicamente correcto associado ao meio ambiente e à preservação da natureza, uma daquelas vacas sagradas, que se entranha, sem se estranhar, em qualquer tópico
de discussão, e com o qual não podia estar mais em desacordo. É aquele
argumento que parte do princípio de que uma das vantagens do livro em papel
terminar seria o fim do desmantelamento de árvores e florestas.
Ora, desde o princípio
dos tempos que os homens retiraram da terra o seu sustento, fizeram casas e
abrigos a partir das madeiras das árvores e das pedras dos solos, desenvolveram
as actividades do comércio e da pecuária com aquilo que o meio ambiente lhes
proporcionava, e souberam fazer uso dos recursos e matérias-primas, transformando-os
em novos produtos, na actividade mais conhecida como indústria. Isto é, o nível de vida
e desenvolvimento que atingimos nos dias de hoje sempre foi proporcionado pela
utilização dos recursos de que o homem dispunha para dar o salto qualitativo seguinte.
No caso concreto do papel, ele remonta ao papiro utilizado a partir de uma
planta no tempo do Antigo Egipto, passando pelo pergaminho que tinha como base
a pele de animais, chegando ao papel moderno, com origens na China, que passa pela utilização da polpa da madeira de árvores como o pinheiro
ou o eucalipto. Considerando a função vital que o papel teve no desenvolvimento
e aperfeiçoamento das civilizações, eu diria que a sua produção não resultou de
um desmantelamento de árvores, mas antes de um aproveitamento e
reutilização perfeitamente legítimas de recursos naturais de forma a colocá-los
ao nobre serviço das pessoas. Tal como um indivíduo tem direito a colher uma
maçã de uma árvore para saciar a sua fome, também tem todo o direito a transformar
madeira em papel ou em qualquer outro fim que resulte num incremento do seu e
do nosso bem-estar. Esses actos não consubstanciam maus-tratos ao meio que nos
rodeia, pelo contrário, o respeito pela Natureza passa por preservá-la da
melhor forma possível para que ela permaneça em condições de nos poder
oferecer o que tem de melhor. Esta perspectiva destrutivista parte do
pressuposto em como tudo o que é meio ambiente é por natureza intocável e toda
a intervenção do homem na sua esfera é nefasta, quando nefastos e condenáveis
só somente o actos de pura destruição do meio natural (como incêndios ou actos
de crueldade para com os animais), ou quando os benefícios retirados da
utilizado desses recursos se tornam inferiores aos prejuízos por eles causados
(como é o caso paradigmático da poluição).
Não
obstante, há bons argumentos para preterir o livro em função do e-book, cuja concorrência é fortíssima. No entanto, penso que o livro
anda traz importantes vantagens como a segurança face à pirataria ou a softwares maliciosos, a
privacidade das nossas leituras, e já para não falar do enorme simbolismo em
que se traduz sentir um livro nas nossas mãos, folhear as suas páginas e
saborear o seu cheiro característico, vantagem essa que, por muito que os e-books evoluam, jamais conseguirão eliminar.
Os livros, mesmo em minoria, têm todas as condições para continuarem a existir
e a fazerem o que melhor sabem, que é, sem dúvida, contar histórias, e só por
isso já são merecedores de continuarem a ser fabricados. E de certeza que todas
as árvores do mundo concordarão com isso.