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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Falando de livros (2)

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” – Fernando Pessoa

Num mercado cada vez mais globalizado e especializado em todo os tipos de produtos, as inovações científicas e tecnológicas sucedem-se à velocidade da luz, e o que hoje é o último grito da moda, amanhã jaz no baú das antiguidades. Cada novo modelo torna o anterior desactualizado, e para cada nova invenção se pergunta se os produtos e técnicas comercializados até então, mesmo os mais tradicionais ou considerados insubstituíveis, ainda terão viabilidade, ou se o seu espaço na vida das pessoas tem os dias contados. Foi ao abrigo destas leis do comércio que o computador substituiu a máquina de escrever, o DVD substituiu o VHS, o CD substituiu a cassete, a pen substituiu a disquete, e, hoje em dia, o formato digital ameaça destronar todos estes suportes físicos ainda utilizados. Por isso se questionou se a Rádio terminaria com o surgimento da Televisão (video killed the radio star), ou se esta ainda terá futuro com o crescimento exponencial da Internet.

Recentemente, tem-se discutido se o desenvolvimento de tecnologias como o kindle ou o ipad poderão determinar a extinção dos livros em formato físico (a amazon, uma das maiores plataformas de comércio electrónico do mundo, vendeu, em 2011, mais e-books do que livros em formato físico), ou se ambos poderão coexistir no mercado. Pessoalmente, considero que não se deve menosprezar as enormes vantagens que os e-books no geral dispõem face aos livros tradicionais, tais como a disponibilidade de descarregamento, a praticabilidade ao nível do transporte e armazenamento, os menores custos de produção que resultam num preço mais económico, a maior facilidade por parte das editoras na actualização e correcção de gralhas, entre outros, todos argumentos de peso que já começaram a pôr em causa o monopólio dos livros em papel. Porém, a todos estes há sempre um argumento politicamente correcto associado ao meio ambiente e à preservação da natureza, uma daquelas vacas sagradas, que se entranha, sem se estranhar, em qualquer tópico de discussão, e com o qual não podia estar mais em desacordo. É aquele argumento que parte do princípio de que uma das vantagens do livro em papel terminar seria o fim do desmantelamento de árvores e florestas.

Ora, desde o princípio dos tempos que os homens retiraram da terra o seu sustento, fizeram casas e abrigos a partir das madeiras das árvores e das pedras dos solos, desenvolveram as actividades do comércio e da pecuária com aquilo que o meio ambiente lhes proporcionava, e souberam fazer uso dos recursos e matérias-primas, transformando-os em novos produtos, na actividade mais conhecida como indústria. Isto é, o nível de vida e desenvolvimento que atingimos nos dias de hoje sempre foi proporcionado pela utilização dos recursos de que o homem dispunha para dar o salto qualitativo seguinte. No caso concreto do papel, ele remonta ao papiro utilizado a partir de uma planta no tempo do Antigo Egipto, passando pelo pergaminho que tinha como base a pele de animais, chegando ao papel moderno, com origens na China, que passa pela utilização da polpa da madeira de árvores como o pinheiro ou o eucalipto. Considerando a função vital que o papel teve no desenvolvimento e aperfeiçoamento das civilizações, eu diria que a sua produção não resultou de um desmantelamento de árvores, mas antes de um aproveitamento e reutilização perfeitamente legítimas de recursos naturais de forma a colocá-los ao nobre serviço das pessoas. Tal como um indivíduo tem direito a colher uma maçã de uma árvore para saciar a sua fome, também tem todo o direito a transformar madeira em papel ou em qualquer outro fim que resulte num incremento do seu e do nosso bem-estar. Esses actos não consubstanciam maus-tratos ao meio que nos rodeia, pelo contrário, o respeito pela Natureza passa por preservá-la da melhor forma possível para que ela permaneça em condições de nos poder oferecer o que tem de melhor. Esta perspectiva destrutivista parte do pressuposto em como tudo o que é meio ambiente é por natureza intocável e toda a intervenção do homem na sua esfera é nefasta, quando nefastos e condenáveis só somente o actos de pura destruição do meio natural (como incêndios ou actos de crueldade para com os animais), ou quando os benefícios retirados da utilizado desses recursos se tornam inferiores aos prejuízos por eles causados (como é o caso paradigmático da poluição).

Não obstante, há bons argumentos para preterir o livro em função do e-book, cuja concorrência é fortíssima. No entanto, penso que o livro anda traz importantes vantagens como a segurança face à pirataria ou a softwares maliciosos, a privacidade das nossas leituras, e já para não falar do enorme simbolismo em que se traduz sentir um livro nas nossas mãos, folhear as suas páginas e saborear o seu cheiro característico, vantagem essa que, por muito que os e-books evoluam, jamais conseguirão eliminar. Os livros, mesmo em minoria, têm todas as condições para continuarem a existir e a fazerem o que melhor sabem, que é, sem dúvida, contar histórias, e só por isso já são merecedores de continuarem a ser fabricados. E de certeza que todas as árvores do mundo concordarão com isso.