A felicidade não é o objectivo de ninguém. Quem diz que o seu principal objectivo para a vida é ser feliz não sabe do que está a falar. Quando falamos em objectivos, estamos a falar de propósitos externos à nossa existência, isto é, em metas que nos propomos a alcançar. Assim, temos o poder de escalonar os objectivos em prioridades, substituir uns por outros, fazê-los depender de planos, conjunturas, prazos ou demais circunstâncias objectivas. E, acima de tudo, temos o poder de simplesmente desistir deles.
Ao invés, a felicidade é tudo menos exterior. Ninguém pode desistir dela, porque a sua procura é inata a cada ser humano, é parte integrante da sua natureza. Cada um a busca à sua maneira e a configura de acordo com os seus padrões, mas nunca deixa de a perseguir. Subjectiva e intemporal, não depende de nenhum condicionalismo externo ou interno. "Todos os homens, sem excepção, procuram ser felizes. Embora por meios diferentes, tendem todos para este fim."
Jean-Paul Sartre dizia que o homem está “condenado a ser livre”, na medida em que o homem não pode escolher não o ser. Eu digo que não, já que nem a nossa liberdade é absoluta ou omnipresente, pois também ela se encontra ao serviço da vontade inexorável que o homem tem em ser feliz. Somos livres nos meios, não nos fins. Se o homem é um ser condenado, será acima de tudo condenado à procura incessante da sua felicidade pessoal, tentativa essa que está presente em toda e qualquer escolha ou acção desenvolvida por nós. Por isso é que, com sabiamente escreve Mohandas Gandhi, “não existe caminho para a felicidade: a felicidade é o caminho”. Se fosse um destino, então bastaria mudar de caminho para abdicarmos de procurar ser felizes. Mas, para o bem e para o mal, não podemos.