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terça-feira, 27 de março de 2012

A liberdade como ela não deve ser (1)



Uma forma eficaz de se aferir o nível de maturidade cívica de uma determinada sociedade é avaliar o uso que é feito da liberdade de expressão por parte dos seus membros. E não há espaço onde o (ab)uso dessa liberdade seja tao patente como na Internet, esse grande universo virtual que nos leva a todo o lado sob a capa (aparente) do anonimato capaz de gerar um sentimento de impunidade, e que se torna, por isso, num local privilegiado para ofensas, injúrias, impropérios e difamações gratuitas e sistemáticas. Chega a ser quase paradoxal constatar que a liberdade de expressão, sendo uma daquelas por que mais se luta e que é mais frequentemente reprimida à força e limitada em tanta parte do mundo, seja talvez aquela cujo uso é feito com mais desconsideração e irresponsabilidade. Tão querida por quem não a tem reconhecida, tão maltratada por quem a vê como adquirida.

Neste sentido, é natural o desconforto com que certas entidades se vêem obrigadas a aceitar os comentários de cibernautas às notícias que publicam, e e os tipos de reacções que isso tem gerado. Ao que parece, o DN optou na sua página oficial por uma política de abstenção de moderação dos comentários, porventura com receio de ser acusado de exercer alguma espécie de censura sobre os mesmos, dando, de acordo suas próprias palavras, liberdade total na acção dos comentários, sem prejuízo de poder proceder judicialmente nos casos em que os actos sejam considerados criminosos pela lei portuguesa. Não recomenda, nesse sentido, a sua leitura a menores ou pessoas sensíveis. Ao fazer isto, o DN parece achar que liberdade a mais é melhor que liberdade a menos. O que ignora é que de uma forma ou de outa, a liberdade fica comprometida. E que moderar os comentários não significa automaticamente fazer censura. Tudo depende da forma como a vigilância é exercida. Uma censura centrada na proibição de comentários com ofensas verbais e difamações de uns cibernautas para com outros ou para com os autores das peças jornalísticas não fere a liberdade, pelo contrário, preserva-a. Ao contrário do que se diz, a nossa liberdade não termina onde começa a liberdade de outrem: ela concretiza-se nesse ponto. Passar por cima dos direitos de outrem resulta num acto arbitrário, ou seja, na negação da própria ideia da liberdade. Os direitos dos outros não são, assim, um limite à nossa liberdade. São o seu fundamento. Não posso, portanto, concordar com este cartão-de-visita com que o DN nos brinda no seu site, dizendo: ”Bem-vindo à liberdade de expressão total! Mas cuidado, mantenha as crianças a salvo! Se passar a vedação estará a entrar numa selva e pode sair ferido!” Assim se torna um espaço que deveria ser privilegiado na troca de ideias e opiniões num local identificado como potencialmente perigoso onde cada um está por sua conta e risco. Bem-vindo à liberdade.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A herança fatal... do jornalismo

Quem vê a introdução do vídeo desta reportagem da TVI é capaz de não compreender à primeira vista se o mesmo se refere à notícia da acusação, nos termos apresentados pelo Ministério Público brasileiro, de Duarte Lima pela morte da Rosalina Feteira que tem marcado a actualidade, ou se se trata de uma campanha publicitária para uma qualquer produção fictícia nacional, a “nova novela da sua noite” a estrear em horário nobre no próximo mês. “Estas são as principais personagens de uma trama onde há morte, dinheiro, muito dinheiro, há casamentos e traições, há crimes por resolver. Na origem da trama está uma herança, uma herança fatal que já fez uma vítima”. Da mesma forma, a música que acompanha o vídeo, típica de um thriller de acção, suspense, intriga e mistério, quase fará acreditar se não estaremos antes perante o trailler de um novo filme de Hollywood, contendo no seu elenco Bruce Willis, Silvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger.

Nada disso. Estamos sim a falar de um caso sério, resultado de um homicídio, envolvendo cidadãos portugueses e que está agora nas mãos da Justiça brasileira e portuguesa. Um caso, portanto, que está à espera de uma decisão judicial, onde se jogam direitos fundamentais das pessoas directamente envolvidas e onde prima um interesse público em punir os responsáveis e absolver os inocentes. Perante estes factos, só resta lamentar a forma descabida – para não dizer vergonhosa – como um órgão de comunicação social nacional decide abordar o tema, apresentando-o aos telespectadores como um espectáculo a não perder numa televisão perto de si. Assim se transforma um caso de polícia num caso de circo, substituindo todo o rigor, racionalidade e isenção que deve caracterizar o jornalismo de informação, por uma dose de sensacionalismo e emotividade com vista a fomentar um clima de “drama, tragédia e horror” que ornamenta grande parte das notícias que constituem a espuma do quotidiano.

É triste, mas reflecte aquilo em que se tornou grande parte do nosso jornalismo na actualidade. A notícia, para merecer a atenção dos nossos ilustres telejornais, tem de ser espectaculosa, polémica, chocante, brutal. Quantos mais ingredientes destes contiver, mais mediática se tornará. O seu valor informativo é relegado para segundo plano, já que a preocupação fundamental do jornalismo em geral deixou de ser informar para passar a ser divertir. E a televisão, ainda hoje o rosto do jornalismo, é sinónimo de diversão e de audiências. Por isso, as notícias deixaram de ser dirigidas à razão dos telespectadores para passarem a ir endereçadas às suas emoções; por isso, todas as notícias são transformadas em novelas e literatura de cordel; por isso, as más notícias, que apelam melhor às emoções fortes, tendem a prevalecer sobre as boas; por isso, em qualquer notícia, entrevista, debate ou reportagem o que serve de destaque não é o ponto que sintetiza a informação ou a mensagem, mas sim aquela citação mais polémica, mais bombástica, muitas vezes retirada de contexto abusivamente, ganhando um significado totalmente diferente do original.

E assim se despreza a enorme responsabilidade que constitui a divulgação de uma notícia. Nesse aspecto, um jornalista deveria estar acima do comum dos mortais, caso contrário a sua profissão - uma das mais nobres que pode haver - deixaria de ter razão de existir. E um jornalista deveria saber que, na notícia, interessa tanto o seu conteúdo como a forma como é dada, e que uma notícia será tão menos rigorosa, transparente, neutra, imparcial e clarividente quanto maior for a promiscuidade entre o seu valor factual e informativo e o sensacionalismo proveniente do desejo de despertar sentimentos e convicções nos destinatários da mesma. A função do jornalismo não é essa, e a apropriação que faz da subjectividade inerente às notícias é ilegítima. Esse julgamento pertence às pessoas, mas o que se assiste constantemente é a uma manipulação tácita e a uma tentativa despercebida de moldar e influenciar sentimentos e consciências através da forma como as notícias são transmitidas.

Poder-se-á dizer que o jornalismo procura apenas ir ao encontro do que as pessoas querem ver e ouvir, tendo de se adaptar às circunstâncias do tempo para sobreviver, pois é desse modo que se geram audiências. Nesse caso, o jornalismo viverá então da herança fatal que recebeu da sociedade em que se insere, onde tudo é fútil, efémero e passageiro, e onde as novidades se mastigam exaustivamente durante um curto período de tempo, para depois caírem no esquecimento como se nunca tivessem existido. Daí as noticias não serem dadas de forma consequente, e o seu valor não ser o factual, estando ao invés dependente do interesse momentâneo que possa ter para o público.

Mas nem isso serve de desculpa. A ser verdade que foi nisso que a sociedade se transformou, também não é menos certo que a comunicação social se tornou nas últimas décadas um dos seus principais poderes, determinante na sua formação e identidade. Não se pode, pois, descartar das responsabilidades, positivas e negativas, que teve e tem na sociedade tal como ela é hoje. Se a sociedade é como é, o poder para a mudar passa também pelas suas mãos. Assim, a comunicação social é livre de seguir o caminho do sensacionalismo e da exploração das emoções baratas, mas nesse caso não se chame jornalismo a reportagens como esta. Porque se a sua preocupação essencial já não é informar da forma mais correcta e independente possível, então o fim pretendido já não serve a função primordial que caracteriza o jornalismo de informação: Formar e Informar.