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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O tempo em que se fazia boa música


A entrada da nossa sociedade na nova era da informação e da comunicação veio a acelerar um processo que já se vinha a verificar pelo menos desde o início do século XX, que é o processo de massificação. Foi esse processo que marcou a diferença do século XX para os anteriores, tendo sido nele que se desenvolveram os principais meios de comunicação e difusão que continuaram a sua escalada num ritmo muito mais vertiginoso pelo século XXI adentro. Massificou-se o acesso ao ensino, à instrução, à informação, à tecnologia, ao desporto. Massificaram-se a cultura e o entretenimento, em todas as suas vertentes de música, literatura, cinema, teatro, e afins. E perante esta avalanche que diariamente nos sufoca de informação duma forma automática, instantânea, efémera e enjoativamente mediática, gerou-se a convicção de que uma cultura massificada resulta sempre numa cultura de fraca qualidade ou de baixo nível intelectual. Porém, a verdade é que o processo de massificação da cultura teve apenas reflexo na quantidade de material produzido, não na sua qualidade. Dizer que antigamente é que se escreviam bons livros, faziam bons filmes, pintavam bons quadros ou compunham boas músicas é estar a cair num erro persistente: o de que os bons exemplos que nos chegam do passado constituem a totalidade da cultura vigente, quando na verdade eles são os ilhéus que sobreviveram ao oceano da posteridade. Hoje, como ontem, faz-se boa e má música, a escala em que é feita é que é imensuravelmente superior, o que dá a tal aparência de mediocridade, mas apenas porque o palheiro é maior. O nosso desafio é, portanto, mais exigente: o de ser capaz de destrinçar, no meio da abundante espuma dos dias, aquilo que tem qualidade (não esquecendo que a apreciação da arte é por natureza subjectiva) daquilo que não é mais do que um fugaz produto da sociedade mediatizada em que vivemos, uma pastilha elástica do quotidiano. Deixemos a posteridade tratar do resto, para que nas próximas gerações haja sempre quem diga que no nosso tempo é que se fazia boa música…

sábado, 10 de dezembro de 2011

Criador versus Criatura

“O homem não nasceu para trabalhar, mas para criar” Agostinho da Silva

Somos livres de criar. Mais do que livres, somos omnipotentes e omniscientes em relação à criatura, a obra criada. Porém, esse estado de plena liberdade dura apenas até ao momento em que começamos a pôr em prática a nossa criatividade. Por outras palavras, só somos verdadeiramente livres de criar até ao momento em que começamos a criar. A partir do ponto em que passamos da ideia à acção, a criatura começa a ganhar vida própria, emancipando-se, ganhando forma, cor, cheiro, textura. A dada altura, o criador torna-se refém da sua criatura: a liberdade de criação permanece, mas o criador vê-se confrontado com limites e barreiras que não existiam anteriormente: são elas as regras que ele próprio criou, ou seja, as características que tornam a sua obra numa criatura sua. Eis o drama – e o orgulho – que assiste a todos os criadores: o de não poder domar a criatura depois de a ter criado.

A título de exemplo, não há muito tempo, rebentou uma polémica em torno do lançamento da edição em Blu-Ray da saga cinematográfica Star Wars, em que alguns fãs, enfurecidos com certas alterações introduzidas nos filmes, chegaram a ameaçar boicotar a nova edição da obra de George Lucas. Podemos dizer, então, que o criador já não manda mais na criatura. Não há artista que nunca tenha sentido isso em relação à sua obra. A partir do momento em que ela sai da casca, ganha autonomia, e o controlo que tinha sobre ela, o poder que lhe assistia de a modificar livremente, torna-se cada vez mais ténue. Formalmente a obra é sua, mas materialmente ganhou uma identidade própria que nem ao próprio autor é reconhecida legitimidade para alterar. Neste caso, são os próprios fãs a contestar a autoridade do criador sobre a obra que é a sua. São os próprios fãs a proclamar a independência da criatura face ao criador.

Numa analogia pouco recomendável, pergunto-me se a definição de Deus, por excelência o criador dos criadores, não poderá ser encontrada nesta dicotomia de Criador versus Criatura. No papel de Criador omnipotente, criou o mundo tal como o conhecemos. Este, entretanto, autonomizou-se, tornando-se independente. Agora, funciona de acordo com as suas próprias regras e princípios, sem depender da vontade do seu Criador. A nossa criação tornou-nos livres, e com isso, fizemos Deus nosso refém.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Falando de Livros

“É fácil dizer-se que não é um grande livro. Mas que qualidade lhe faltará? Talvez a de nada acrescentar à nossa visão da vida”. – Virginia Woolf.

Um bom livro é aquele que não acaba quando o terminamos de ler. É um livro que permanece connosco muito depois de termos virado a última página e fechado a contracapa. Um bom livro não se encerra com esses actos nem volta a ir morar para a prateleira poeirenta que o expeliu para as nossas mãos até cair no esquecimento, muito pelo contrário, acompanha-nos pelo resto da vida, está sempre vivo na medida em que voltamos a ele inúmeras vezes sempre que o invocamos voluntária ou involuntariamente na nossa mente, a propósito ou a despropósito do que vamos enfrentando no dia-a-dia. Um bom livro é aquele que passa a fazer parte integrante de nós, das nossas qualidades e defeitos, das nossas experiências, das nossas memórias, é aquele que o leitor acolhe como seu, em virtude da forma como o marcou. É, portanto, um livro que consegue ir mais além da sua função essencial, que é, para todos os efeitos, como qualquer outra forma de arte, o entretenimento, a satisfação de quem o lê proporcionada no momento em que o lê. Assim, um livro supera as suas expectativas quando consegue, seja através da sua temática, escrita, personagens, mensagem, humor, drama, pedagogia, entre outros, colocar o leitor a reflectir para além do momento em que está frente a frente com as suas páginas escritas. Isso é que significa para um leitor identificar-se com um livro, ou, por outras palavras, gostar dele.

Pelo contrário, um mau livro será um livro que acaba antes de nós o terminarmos de ler. Trata-se de um livro que basicamente já está “morto” ainda antes de chegarmos ao fim, de tão aborrecido ou maçador que se tornou para o leitor, donde que o exercício de o ler até à última página só é feito em obediência a um sentido de dever ou de obrigação, revelando-se por vezes de tal forma penoso que somos forçados a desistir de levar tão inglória tarefa até ao fim, deixando-o a meio (da história, pois o livro, enquanto tal, já chegara ao fim).

Entre um bom e um mau livro, temos toda uma vasta gama de livros que, no essencial, cumprem os seus requisitos essenciais, os quais lemos, gostamos, consideramos bons e interessantes no momento em que os lemos, mas que acabam ali mesmo, precisamente no último ponto final da história, quando o fechamos, arrumamos, e passamos ao próximo. São como aquelas pessoas com quem convivemos durante um certo período, que não fazem parte da nossa vida mas que passaram por nós num determinado momento, e assim como passaram, foram-se embora, sem deixar grandes saudades, apenas um resquício da sua passagem.

Esta perspectiva serve naturalmente tanto para a literatura como para qualquer outra expressão do vasto universo artístico – música, cinema, teatro, entre outros. Ao adoptar este critério, estou naturalmente a subscrever uma visão subjectiva da própria Arte, isto é, ela terá tanto ou mais qualidade conforme a sensibilidade de cada um para a apreciar. O que para um é bom, para outro é mau. Mas a Arte não terá um valor próprio que não seja exclusivamente dependente da subjectividade de cada um? Sem dúvida, daí que esta acepção não implique que a Arte não deva ser aferida por parâmetros de estética objectivos. Por exemplo, no que toca à literatura, encontramos estes parâmetros na qualidade da escrita, erros ortográficos e construção frásica, recurso a figuras de estilo, capacidade de criação e desenvolvimento das personagens, narração e descrição, coerência interna da história, desenvolvimento espácio-temporal da acção, etc. Assim, um livro pode ser, do ponto de vista objectivo, qualitativamente bom ou mau, porém, essa qualificação pode não coincidir com a avaliação que cada um faz, de acordo com o seu ponto de vista, do livro e do que representou para si. Até porque, no fundo, quando julgamos uma peça de arte – da mesma forma que acontece quando julgamos qualquer pessoa ou aspecto da nossa vida, – esse julgamento depende acima de tudo de nós próprios, e quase nada do objecto que julgamos, por muito que estejamos convencidos do contrário.