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domingo, 23 de outubro de 2011

ProblemÉtica da República... e não só


“A Ética não vive nas formas de governo. A Ética nasce e morre com o indivíduo. O homem é bom porque é bom. Não porque é republicano.”

Este mote do discurso do deputado Adolfo Mesquita Nunes à Assembleia da República a propósito da proclamada Ética Republicana, ou se quisermos, da ProblemÉtica da República, consegue tocar de forma precisa num ponto fulcral de um certo tipo de mentalidade que flui nas veias da nossa sociedade. As pessoas é que criam, formam e constituem um regime, e o código de valores por este recebido é o dos seus constituintes; as pessoas é que determinam o respectivo sistema ou modelo político e social em que se organizam, e a natureza deste é moldada em função dos respectivos indivíduos, não o inverso. O republicanismo é, pois, uma forma de governo, nada mais. Um indivíduo não é qualificável em função da sua ideologia, e o facto de ser republicano não o investe numa superioridade moral ou ética em relação aos partidários de regimes diversos, nem os dota de outras qualidades pessoais acrescidas. “A República qualifica a forma de governo. É a liberdade que nos qualifica como cidadãos e nos coloca centralmente face ao poder político”, acrescenta o mesmo deputado mais à frente.

Numa outra dimensão da mesma questão, poder-se-ia dizer que este raciocínio se deveria aplicar por igual às convicções ideológicas em geral. E este é um dos aspectos que eu considero mais criticável na área política da Esquerda, indissociável do republicanismo português, e sempre pronta a erguer o estandarte da República como seu. Para a Esquerda, um homem, independentemente do seu carácter, será bom pelo simples facto de ser de Esquerda, e as acções levadas a cabo na luta cívica e política que travar, são sempre norteadas por padrões morais e éticos mais elevados. E da pertença a essa família ideológica advirá a autoridade para falar sempre em nome do povo, e para reclamar como exclusivamente seus os ideais de verdade, liberdade, igualdade, ou justiça social. Um homem de esquerda é aquele que sabe sempre o que é melhor para o povo, melhor até do que o próprio povo que diz representar.

Este pensamento reflecte-se de diferentes formas no organismo vivo da nossa sociedade. Por exemplo, através da ideia de que a Esquerda tem sempre a maioria da população na sua retaguarda, sendo os seus únicos legítimos representantes e porta-vozes, precisamente por serem os únicos com moral para falar em nome dela. A ideia de que o povo é património que lhe pertence naturalmente, partilhando sempre das suas convicções, porque, como toda a gente sabe, o povo é de esquerda, mesmo quando não vota maioritariamente nos partidos à esquerda. Independentemente da representação política, a maioria social (ou seja, da sociedade) nunca deixa de ser de esquerda, e por isso as assembleias populares, constituídas por indivíduos que se auto-investem na autoridade de representar o povo, são mais legítimas do que as assembleias eleitorais. Porquê? Porque os valores de Esquerda são sempre os mais puros, as suas causas, as mais justas, e as suas lutas obedecem sempre aos mais nobres princípios. E daí o sentimento de que quem é de esquerda é bom por natureza, mais ético, mais fraterno, tem mais moral e humanidade do que qualquer outro indivíduo.

Outro reflexo desta forma de pensar é a capacidade de olharmos para pessoas cujo nome se escreve na História pelas piores razões sem nunca nos conseguirmos livrar daquele filtro romanceado trazido pelo conceito de revolucionário, e sem nunca deixar de ter um sentimento de identificação pelas suas lutas, uma certa simpatia ou mesmo nostalgia, tendo em conta que nos são apresentados como modelos que até nos deviam inspirar pelo seu idealismo. Pessoas como Lenine, Estaline, Che, Fidel, Mao, ou mesmo Kadhafi, responsáveis por acções que em qualquer outra parte do mundo seriam descritos como actos criminosos, no que a eles diz respeito não deixam de ser vistos como meros erros de percurso, encontrando sempre justificação na causa maior em nome da qual dizem agir. Assim nascem os carinhosos apelidos de heróis revolucionários, porque todos eles são de esquerda, e portanto, bons por natureza, e portanto, irrepreensíveis do ponto de vista moral.

Acontece que a Ética do povo não está adstrita a nenhuma ideologia ou forma de governo. A ética, tal como a moral, é pessoal e intransmissível, inerente ao código de valores de cada um. É antes na liberdade individual que os regimes se devem ancorar - e já agora, também as ideologias, se quiserem realmente estar ao serviço dos homens. Sem dúvida, uma excelente mensagem para se passar na Assembleia da República a propósito das comemorações da implantação da República.