“Nem tudo o que
enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não o
enfrentarmos”- James Baldwin
No passado dia 20 de Outubro, 66% dos eleitores islandeses votaram a favor de um referendo para uma nova constituição para o seu país. Não
uma constituição qualquer, mas uma constituição redigida entre um painel de 25
cidadãos de conhecida competência nas várias áreas, e que contou com a participação de milhares de outros cidadãos que deram as suas sugestões,designadamente através das redes sociais. Este processo foi o culminar de um
percurso iniciado no ano de 2008, ano em que a Islândia se viu particularmente
afectada pela grave crise desencadeada, em consequência da qual os três maiores bancos colapsaram e tiveram de ser nacionalizados, a coroa islandesa desvalorizou 85% face ao euro e no final desse ano, o desemprego atingiu o máximo histórico e o país entrou em falência. Tudo problemas idênticos aos que
hoje se assiste nomeadamente em Portugal. O caminho que optou por trilhar é que
tem sido consideravelmente diferente do nosso, mas a verdade é que, 4 anos
depois, a Islândia parece ter conseguido inverter a situação, como demonstram os principais
indicadores, sendo a sua economia actualmente classificada como próspera e
estável, com perspectivas de crescimento económico.
Não sei se daqui em diante estes cenários se irão manter ou
se, nos tempos instáveis em que vivemos, as coisas voltarão a inverter-se de um
dia para o outro. Também não posso afirmar com certeza que as mesmas soluções
económicas aplicadas a Portugal teriam o mesmo resultado, possivelmente não, ou
pelo menos não sem um ajustamento à nossa realidade, tendo em conta que cada
país tem os seus condicionalismos próprios, e o contexto da Islândia é sem dúvida
diferente do nosso. Mas o que sei foi que no rescaldo da crise que atravessou,
a Islândia foi capaz de dar um exemplo ao mundo inteiro neste acto levado a
cabo no passado dia 20 de Outubro, aproveitando a oportunidade para renascer
das cinzas, e, partindo do zero, levar uma nova constituição a referendo, que,
se for aprovada, será um caso único e uma lição de democracia. Quem disse que
não é possível resolver problemas como estes em democracia?
Pergunto-me honestamente se em Portugal uma iniciativa deste
género seria sequer possível. Convidar os melhores académicos, juristas,
cientistas, historiadores, pensadores, traçando um novo desígnio para Portugal com
a participação de todos os cidadãos que se quiserem envolver. Criar uma nova constituição,
que fosse moderna, que atentasse nos problemas e desafios com que nos deparamos
hoje, e que apontasse um projecto para o futuro. E depois, que fosse submetida
a um referendo nacional. Não seria esta uma mudança de regime saudável, com uma constituição verdadeiramente participativa e democrática, ratificada
popularmente, e capaz de gerar consensos para o futuro como nenhuma outra? Não teríamos
um novo regime realmente sedimentado no nosso povo, de onde emergiria um novo
poder executivo mais susceptível de se sentir escrutinado e fiscalizado por todos nós?
Seria efectivamente um desafio muito interessante a colocar-se à nossa sociedade de hoje, e que, com o impulso certo, acredito
que não haveria razão nenhuma para não ter o mesmo desfecho que parece ter tido na Islândia, mesmo sabendo que por cá qualquer abordagem, por mais leve que seja,
para mexer, alterar, modificar ou refundar a sagrada estrutura do Estado cause logo
um terror apopléctico. Sem dúvida que uma iniciativa deste género contaria desde logo com
larga oposição, a começar pelos próprios partidos, jamais disponíveis para
abdicarem do lugar privilegiado que têm dentro deste regime, deixando operar-se
uma reforma fora dos seus salões, passando por todos os demais sindicatos, corporações
e organismos incrustados nas raízes deste Estado. Mas estou seguro que nada nos
impediria de levarmos uma iniciativa como esta em frente, bastando para tal que
tentássemos ser a sociedade civil que esperamos de nós próprios. Mesmo que não
obtivéssemos os mesmos resultados, não tenho dúvida que a nossa cidadania
sairia muito mais fortalecida, e a nossa confiança também. Em vez de passarmos
os dias a olhar para o exemplo grego, já seria altura de mudarmos de inspiração.
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