A entrada da nossa
sociedade na nova era da informação e da comunicação veio a acelerar um
processo que já se vinha a verificar pelo menos desde o início do século XX,
que é o processo de massificação. Foi esse processo que marcou a diferença do
século XX para os anteriores, tendo sido nele que se desenvolveram os principais
meios de comunicação e difusão que continuaram a sua escalada num ritmo muito
mais vertiginoso pelo século XXI adentro. Massificou-se o acesso ao ensino, à
instrução, à informação, à tecnologia, ao desporto. Massificaram-se a cultura e
o entretenimento, em todas as suas vertentes de música, literatura, cinema,
teatro, e afins. E perante esta avalanche que diariamente nos sufoca de
informação duma forma automática, instantânea, efémera e enjoativamente
mediática, gerou-se a convicção de que uma cultura massificada resulta sempre numa
cultura de fraca qualidade ou de baixo nível intelectual. Porém, a verdade é
que o processo de massificação da cultura teve apenas reflexo na quantidade de
material produzido, não na sua qualidade. Dizer que antigamente é que se
escreviam bons livros, faziam bons filmes, pintavam bons quadros ou compunham
boas músicas é estar a cair num erro persistente: o de que os bons exemplos que
nos chegam do passado constituem a totalidade da cultura vigente, quando na
verdade eles são os ilhéus que sobreviveram ao oceano da posteridade. Hoje,
como ontem, faz-se boa e má música, a escala em que é feita é que é imensuravelmente
superior, o que dá a tal aparência de mediocridade, mas apenas porque o
palheiro é maior. O nosso desafio é, portanto, mais exigente: o de ser capaz de
destrinçar, no meio da abundante espuma dos dias, aquilo que tem qualidade (não esquecendo que a apreciação da arte é por natureza subjectiva) daquilo que não
é mais do que um fugaz produto da sociedade mediatizada em que vivemos, uma
pastilha elástica do quotidiano. Deixemos a posteridade tratar do resto, para
que nas próximas gerações haja sempre quem diga que no nosso tempo é que se
fazia boa música…
Brilhante Filipe!
ResponderEliminarVim fugazmente ao teu blogue, antes do que antevejo ser um apressado almoço, e defronto-me com um comentário notável sobre a massificação das "coisas"!
Quando os "senhores do mundo" massificam, globalizam e controlam, não o fazem sem um propósito bem definido.
Quem consegue massificar e amedrontar as "massas", consegue fazê-las parar, seja em que perspectiva for.
E enquanto estão pasmadas de medo, não actuam. Reagem!
E reagem ao medo!
E assim, são facilmente manipuláveis.
Digno de uma coluna jornalística!
Keep on!