A entrada da nossa
sociedade na nova era da informação e da comunicação veio a acelerar um
processo que já se vinha a verificar pelo menos desde o início do século XX,
que é o processo de massificação. Foi esse processo que marcou a diferença do
século XX para os anteriores, tendo sido nele que se desenvolveram os principais
meios de comunicação e difusão que continuaram a sua escalada num ritmo muito
mais vertiginoso pelo século XXI adentro. Massificou-se o acesso ao ensino, à
instrução, à informação, à tecnologia, ao desporto. Massificaram-se a cultura e
o entretenimento, em todas as suas vertentes de música, literatura, cinema,
teatro, e afins. E perante esta avalanche que diariamente nos sufoca de
informação duma forma automática, instantânea, efémera e enjoativamente
mediática, gerou-se a convicção de que uma cultura massificada resulta sempre numa
cultura de fraca qualidade ou de baixo nível intelectual. Porém, a verdade é
que o processo de massificação da cultura teve apenas reflexo na quantidade de
material produzido, não na sua qualidade. Dizer que antigamente é que se
escreviam bons livros, faziam bons filmes, pintavam bons quadros ou compunham
boas músicas é estar a cair num erro persistente: o de que os bons exemplos que
nos chegam do passado constituem a totalidade da cultura vigente, quando na
verdade eles são os ilhéus que sobreviveram ao oceano da posteridade. Hoje,
como ontem, faz-se boa e má música, a escala em que é feita é que é imensuravelmente
superior, o que dá a tal aparência de mediocridade, mas apenas porque o
palheiro é maior. O nosso desafio é, portanto, mais exigente: o de ser capaz de
destrinçar, no meio da abundante espuma dos dias, aquilo que tem qualidade (não esquecendo que a apreciação da arte é por natureza subjectiva) daquilo que não
é mais do que um fugaz produto da sociedade mediatizada em que vivemos, uma
pastilha elástica do quotidiano. Deixemos a posteridade tratar do resto, para
que nas próximas gerações haja sempre quem diga que no nosso tempo é que se
fazia boa música…
Um lugar onde não se escreve por conta de outrem, só por conta própria. Por conseguinte, não é aqui aplicável o conceito de justa causa que consta que vai desaparecer do art. 53.º da Constituição. Afinal, não há uma justa causa para escrever, tendo em conta que toda a Escrita já é, por si, uma causa justa.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
A ideologia do indivíduo
Numa altura em que
tanto se fala de crises e da forma como as liberdades fundamentais estão
ameaçadas, eu viro-me para a liberdade de pensamento como a única liberdade
verdadeiramente inviolável do ser humano. Numa altura em que tanto se fala da
força das massas, da luta dos povos, da voz dos movimentos e associações para enfrentar
os poderes instituídos, eu viro-me para o indivíduo como o antídoto e contrapeso
mais eficaz desses mesmos poderes. No indivíduo é que está o todo, e é na sua capacidade
de pensar que germinam as sementes de mudança. Citando Agostinho da Silva, “partido é uma parte: sê inteiro”.
O problema de qualquer ideologia em
sentido lato, isto é, qualquer conjunto de ideias, convicções ou princípios
filosóficos, independentemente da sua inspiração ou dogma, é que tende a cair no erro de tentar aglutinar o todo e não os indivíduos, pois é o todo que lhe dá a
ilusão de poder. A adesão em massa e acrítica em torno dessas ideologias, sejam
elas forças políticas ou sociais, movimentos de ruptura ou de continuidade, causas
activistas, morais, sindicalistas, desportivas ou religiosas, até às histéricas
indignações do marketing e da
comunicação social que logo resultam numa aglutinação em torno de uma qualquer pretensa polémica, vão de encontro fundamentalmente ao que cada um desses
poderes precisa, e não necessariamente os indivíduos. Todas as ideologias massificadas
são uma forma de poder, e todas elas usam a informação com arma de difusão e propaganda para satisfazerem os seus fins.
Por isso é que o palco principal em que hoje esses poderes se confrontam é o das palavras e das convicções
que elas despertam, pois só elas trazem legitimidade às acções praticadas. O que faz notícia e causa polémica na actualidade são as
declarações de A, B ou C, não os factos. Estes últimos são na maior parte das
vezes ignorados, só sendo tidos em conta naquilo que servirem para justificar o
ponto de vista de cada um. Já as ditas declarações dão pano para mangas nas
páginas dos jornais, pois todas essas ideologias tentam provar que a chamada
opinião pública está do seu lado, com vista a domá-la e a sentirem-se
tacitamente legitimadas nos seus propósitos e nos meios para os atingir. Mas o
que é a opinião pública se não uma massa indistinta de indivíduos, em nome dos
quais os poderes instituídos falam? “Eu sempre achei mais fácil
convencer uma grande massa do que uma só pessoa”. Quem o dizia era Benito Mussolini.
Porque a grande massa é
por natureza intolerante. A opinião pública é por natureza intolerante. Quando se
fala numa opinião pública, está-se a tomar a parte pelo todo, elegendo-se uma
opinião ou um comportamento como universal, impossível de ser endereçado a alguém
em particular, mas que deve ser por todos respeitado como a opinião maioritária,
e portanto, com razão, e portanto, legítima. Há sempre uma única opinião pública,
ela é singular e não plural. Ditando como “pensa” a opinião pública, torna-se
mais fácil fazer aquele exercício tantas vezes visto de invocar que o povo ou o
país é a favor disto ou contra aquilo, está do nosso lado e não do outro, ou
seja, rapidamente se assiste a uma apropriação ilegítima de uma voz colectiva,
falando em nome de um todo e desprezando as partes.
Pelo contrário, a
tolerância mútua entre os indivíduos deveria ser a regra de ouro do
comportamento humano, já que “nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.” Sim, a tolerância, um dos conceitos que mais
gera confusão na sua definição, já que ela não passa por uma aceitação indiscriminada de tudo o que nos é sugerido de fora, mas sim pelo espírito crítico face à opinião
contrária, respeitando sempre aquilo que é a sua diferença intrínseca e
principalmente o direito de quem a defende de se expressar ou comportar de
acordo com ela. No momento em que para sermos considerados tolerantes tivermos
que acatar uma opinião ou um comportamento com o qual não concordamos, será o
momento em que estaremos a ceder perante uma imposição, que mais não é do que
uma manifestação de intolerância sob a capa do seu antónimo, como tantas vezes
acontece.
Isso não significa que
a união não deva fazer a força. As associações, os partidos, os
movimentos, as religiões e os diversos grupos são tão importantes quanto as
pessoas que estão por detrás delas, e todas elas se socorrem de ideologias, e
todas elas terão sempre um substrato humano que as sustente. Devemos, pois, unir-nos
em torno de objectivos comuns, e combater por aquilo em que acreditamos. O que não
deve acontecer é uma adesão acrítica e fanática a uma certa ideologia, abdicando
daquilo que temos de mais precioso, a nossa liberdade de pensamento, a nossa
capacidade de pensarmos e avaliarmos por nós próprios, substituindo-as pelos
julgamentos e juízos de valor encapotados de factos que minam a informação que
nos bombardeia a toda a volta, e que nos é apresentada como um prato pronto a
comer, uma única saída, uma única alternativa, uma única forma de pensar. O ponto
em que começarmos a engolir sem mastigar, será o ponto em que os indivíduos
passarão a estar ao serviço dos diversos poderes, invertendo-se a lógica, tornando-se mais vulneráveis à influência e manipulação de quem está no poder, diluindo-se a individualidade num todo, numa grande massa indistinta, mais sujeita a servir os propósitos de alguns. Pelo contrário, quanto mais indivíduos autónomos e independentes houver na sociedade, menos o poder,
venha ele de onde vier, será capaz de os vergar, e mais estará ao serviço de todos,
a sua função primordial.
Prezemos pois, a nossa
liberdade de pensamento, e façamos uso dela, elegendo também a tolerância mútua
como regra de ouro do comportamento humano. Instruamos as novas gerações com
uma educação assente nestes pressupostos, e estaremos a agir como verdadeiros
factores de mudança.
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