“É fácil dizer-se que não é um grande livro. Mas que qualidade lhe faltará? Talvez a de nada acrescentar à nossa visão da vida”. – Virginia Woolf.
Um bom livro é aquele que não acaba quando o terminamos de
ler. É um livro que permanece connosco muito depois de termos virado a última
página e fechado a contracapa. Um bom livro não se encerra com esses actos nem
volta a ir morar para a prateleira poeirenta que o expeliu para as nossas mãos
até cair no esquecimento, muito pelo contrário, acompanha-nos pelo resto da
vida, está sempre vivo na medida em que voltamos a ele inúmeras vezes sempre
que o invocamos voluntária ou involuntariamente na nossa mente, a propósito ou
a despropósito do que vamos enfrentando no dia-a-dia. Um bom livro é aquele que
passa a fazer parte integrante de nós, das nossas qualidades e defeitos, das
nossas experiências, das nossas memórias, é aquele que o leitor acolhe como
seu, em virtude da forma como o marcou. É, portanto, um livro que consegue ir
mais além da sua função essencial, que é, para todos os efeitos, como qualquer
outra forma de arte, o entretenimento, a satisfação de quem o lê proporcionada
no momento em que o lê. Assim, um livro supera as suas expectativas quando
consegue, seja através da sua temática, escrita, personagens, mensagem, humor,
drama, pedagogia, entre outros, colocar o leitor a reflectir para além do
momento em que está frente a frente com as suas páginas escritas. Isso é que
significa para um leitor identificar-se com um livro, ou, por outras palavras,
gostar dele.
Pelo contrário, um mau livro será um livro que acaba antes
de nós o terminarmos de ler. Trata-se de um livro que basicamente já está
“morto” ainda antes de chegarmos ao fim, de tão aborrecido ou maçador que se
tornou para o leitor, donde que o exercício de o ler até à última página só é
feito em obediência a um sentido de dever ou de obrigação, revelando-se por
vezes de tal forma penoso que somos forçados a desistir de levar tão inglória
tarefa até ao fim, deixando-o a meio (da história, pois o livro, enquanto tal,
já chegara ao fim).
Entre um bom e um mau livro, temos toda uma vasta gama de
livros que, no essencial, cumprem os seus requisitos essenciais, os quais
lemos, gostamos, consideramos bons e interessantes no momento em que os lemos,
mas que acabam ali mesmo, precisamente no último ponto final da história, quando
o fechamos, arrumamos, e passamos ao próximo. São como aquelas pessoas com quem
convivemos durante um certo período, que não fazem parte da nossa vida mas que
passaram por nós num determinado momento, e assim como passaram, foram-se
embora, sem deixar grandes saudades, apenas um resquício da sua passagem.
Esta perspectiva serve naturalmente tanto para a literatura
como para qualquer outra expressão do vasto universo artístico – música,
cinema, teatro, entre outros. Ao adoptar este critério, estou naturalmente a
subscrever uma visão subjectiva da própria Arte, isto é, ela terá tanto ou mais
qualidade conforme a sensibilidade de cada um para a apreciar. O que para um é
bom, para outro é mau. Mas a Arte não terá um valor próprio que não seja
exclusivamente dependente da subjectividade de cada um? Sem dúvida, daí que
esta acepção não implique que a Arte não deva ser aferida por parâmetros de
estética objectivos. Por exemplo, no que toca à literatura, encontramos estes
parâmetros na qualidade da escrita, erros ortográficos e construção frásica,
recurso a figuras de estilo, capacidade de criação e desenvolvimento das
personagens, narração e descrição, coerência interna da história,
desenvolvimento espácio-temporal da acção, etc. Assim, um livro pode ser, do ponto
de vista objectivo, qualitativamente bom ou mau, porém, essa qualificação pode
não coincidir com a avaliação que cada um faz, de acordo com o seu ponto de
vista, do livro e do que representou para si. Até porque, no fundo, quando
julgamos uma peça de arte – da mesma forma que acontece quando julgamos
qualquer pessoa ou aspecto da nossa vida, – esse julgamento depende acima de
tudo de nós próprios, e quase nada do objecto que julgamos, por muito que
estejamos convencidos do contrário.
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