sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O filho de peixe que tem de nadar


O problema dos regimes monárquicos actuais não está nem nunca esteve na sua falta de democraticidade. Ele centra-se, acima de tudo, numa questão de falta de legitimidade. As democracias existem tanto em regimes republicanos quanto monárquicos, e também não faltam exemplos em como tanto uns como outros são susceptíveis de gerar, em alternativa, ditaduras e totalitarismos. A diferença entre uns e outros depende muito da forma como o poder é exercido e muito pouco do método de escolha e sucessão dos respectivos governantes. Em matéria de democracia, o republicanismo não dá nenhuma lição de moral ou ética ao monarquismo, tendo sido na vigência das monarquias, aliás, que se começaram a gerar as raízes das democracias liberais em que todos temos o privilégio de viver nos dias de hoje. Nunca é de mais relembrar que a própria democracia mais antiga do mundo está sediada no Reino Unido, cujo regime é monárquico desde a sua fundação, e com o qual teríamos todos muito a aprender.

Já a forma como se legitima um chefe de Estado num regime monárquico torna-se muito mais difícil de justificar. Comparando a razão e o fundamento subjacente ao investimento de um certo indivíduo como titular do cargo de chefe de Estado de um país, a resposta que se obtém quando se pergunta a um presidente da república porque razão é ele o presidente e não outro, será “porque o povo assim me elegeu”. Contudo, quando se pergunta a um rei porque razão é ele o rei e não outro, ele responderá “porque o meu pai foi rei antes de mim”. E porque razão foi o teu pai rei? Porque o seu pai foi rei antes dele. E porque razão foi rei o pai do teu pai? Porque a sua mãe foi rainha antes dele. A lógica da sua sucessão, é, portanto, dinástica, e o “trono” é herdado como se se tratasse de um património particular legado de pai para filho por via da sucessão civil, diluindo-se a noção de pátria como uma comunidade plural e a própria relação que deveria existir entre um povo e os seus representantes. Se os titulares dos cargos do poder são hoje entendidos como representantes dos seus concidadãos, de que forma um rei se pode arrogar a ser o representante do seu povo, se este não teve nenhuma palavra a dizer na sua eleição, tendo sido a escolha predestinada pelo nascimento? O exercício do poder não será, por isso, mais, ou menos, democrático, mas a sua legitimidade já pode ser bastante questionável, num duplo sentido: a legitimidade de um Estado para atribuir a um indivíduo, ainda antes de ele nascer, uma função predestinada; e a legitimidade em que esse indivíduo está investido para exercer o poder colectivo em nome de outrem. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Falando de livros (2)

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” – Fernando Pessoa

Num mercado cada vez mais globalizado e especializado em todo os tipos de produtos, as inovações científicas e tecnológicas sucedem-se à velocidade da luz, e o que hoje é o último grito da moda, amanhã jaz no baú das antiguidades. Cada novo modelo torna o anterior desactualizado, e para cada nova invenção se pergunta se os produtos e técnicas comercializados até então, mesmo os mais tradicionais ou considerados insubstituíveis, ainda terão viabilidade, ou se o seu espaço na vida das pessoas tem os dias contados. Foi ao abrigo destas leis do comércio que o computador substituiu a máquina de escrever, o DVD substituiu o VHS, o CD substituiu a cassete, a pen substituiu a disquete, e, hoje em dia, o formato digital ameaça destronar todos estes suportes físicos ainda utilizados. Por isso se questionou se a Rádio terminaria com o surgimento da Televisão (video killed the radio star), ou se esta ainda terá futuro com o crescimento exponencial da Internet.

Recentemente, tem-se discutido se o desenvolvimento de tecnologias como o kindle ou o ipad poderão determinar a extinção dos livros em formato físico (a amazon, uma das maiores plataformas de comércio electrónico do mundo, vendeu, em 2011, mais e-books do que livros em formato físico), ou se ambos poderão coexistir no mercado. Pessoalmente, considero que não se deve menosprezar as enormes vantagens que os e-books no geral dispõem face aos livros tradicionais, tais como a disponibilidade de descarregamento, a praticabilidade ao nível do transporte e armazenamento, os menores custos de produção que resultam num preço mais económico, a maior facilidade por parte das editoras na actualização e correcção de gralhas, entre outros, todos argumentos de peso que já começaram a pôr em causa o monopólio dos livros em papel. Porém, a todos estes há sempre um argumento politicamente correcto associado ao meio ambiente e à preservação da natureza, uma daquelas vacas sagradas, que se entranha, sem se estranhar, em qualquer tópico de discussão, e com o qual não podia estar mais em desacordo. É aquele argumento que parte do princípio de que uma das vantagens do livro em papel terminar seria o fim do desmantelamento de árvores e florestas.

Ora, desde o princípio dos tempos que os homens retiraram da terra o seu sustento, fizeram casas e abrigos a partir das madeiras das árvores e das pedras dos solos, desenvolveram as actividades do comércio e da pecuária com aquilo que o meio ambiente lhes proporcionava, e souberam fazer uso dos recursos e matérias-primas, transformando-os em novos produtos, na actividade mais conhecida como indústria. Isto é, o nível de vida e desenvolvimento que atingimos nos dias de hoje sempre foi proporcionado pela utilização dos recursos de que o homem dispunha para dar o salto qualitativo seguinte. No caso concreto do papel, ele remonta ao papiro utilizado a partir de uma planta no tempo do Antigo Egipto, passando pelo pergaminho que tinha como base a pele de animais, chegando ao papel moderno, com origens na China, que passa pela utilização da polpa da madeira de árvores como o pinheiro ou o eucalipto. Considerando a função vital que o papel teve no desenvolvimento e aperfeiçoamento das civilizações, eu diria que a sua produção não resultou de um desmantelamento de árvores, mas antes de um aproveitamento e reutilização perfeitamente legítimas de recursos naturais de forma a colocá-los ao nobre serviço das pessoas. Tal como um indivíduo tem direito a colher uma maçã de uma árvore para saciar a sua fome, também tem todo o direito a transformar madeira em papel ou em qualquer outro fim que resulte num incremento do seu e do nosso bem-estar. Esses actos não consubstanciam maus-tratos ao meio que nos rodeia, pelo contrário, o respeito pela Natureza passa por preservá-la da melhor forma possível para que ela permaneça em condições de nos poder oferecer o que tem de melhor. Esta perspectiva destrutivista parte do pressuposto em como tudo o que é meio ambiente é por natureza intocável e toda a intervenção do homem na sua esfera é nefasta, quando nefastos e condenáveis só somente o actos de pura destruição do meio natural (como incêndios ou actos de crueldade para com os animais), ou quando os benefícios retirados da utilizado desses recursos se tornam inferiores aos prejuízos por eles causados (como é o caso paradigmático da poluição).

Não obstante, há bons argumentos para preterir o livro em função do e-book, cuja concorrência é fortíssima. No entanto, penso que o livro anda traz importantes vantagens como a segurança face à pirataria ou a softwares maliciosos, a privacidade das nossas leituras, e já para não falar do enorme simbolismo em que se traduz sentir um livro nas nossas mãos, folhear as suas páginas e saborear o seu cheiro característico, vantagem essa que, por muito que os e-books evoluam, jamais conseguirão eliminar. Os livros, mesmo em minoria, têm todas as condições para continuarem a existir e a fazerem o que melhor sabem, que é, sem dúvida, contar histórias, e só por isso já são merecedores de continuarem a ser fabricados. E de certeza que todas as árvores do mundo concordarão com isso. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Algumas propostas de revisão da Constituição (que não a modificariam absolutamente nada)…

…Mas que teriam a enorme vantagem de a tornar mais clara, sucinta e, consequentemente, mais compreensível a todos os cidadãos. Eis alguns exemplos de meras redundâncias que pululam em muitos dos seus artigos:

Artigo 46.º, n.º 1: os cidadãos têm o direito de (…) constituir associações, desde que estas não se destinem a promover a violência e os respectivos fins não sejam contrários à lei penal”. Ora, tanto quanto se sabe, a promoção da violência já é, per se, um fim contrário à lei penal, que a criminaliza de diversas formas em diferentes tipos legais de crimes, pelo que a sua autonomização nesta norma nada acrescenta ao princípio subjacente à constituição de associações, a não ser papel;

Artigo 53.º: “É garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos”. Na enumeração das situações que podem dar origem despedimento por justa causa previstas no Código do Trabalho (artigo 394.º) não se encontra o despedimento por motivos políticos ou ideológicos, ou seja, um despedimento assente nessas premissas seria sempre um despedimento sem justa causa, e, portanto, encontraria sempre previsão na norma constitucional. Temos, pois, outra redundância;

Artigo 59.º, n.º 1: “Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, convicções políticas ou ideológicas, têm direito (…)”. A expressão todos os trabalhadores já pressupõe que não haja qualquer distinção entre eles, e que os direitos que vêm enumerados em seguida sejam transversais a todos eles. A idade, o sexo, a raça e tudo mais só cansam a vista de quem lê, o seu peso jurídico é inócuo, e funcionam como letra mota no texto constitucional, já que nada acrescentam ao referido anteriormente;

Artigo 62.º, n.º 2: “A requisição e a expropriação (…) só podem ser efectuadas com base na lei e mediante o pagamento de justa indemnização”. A justa indemnização dos bens expropriados já vem prevista no Código das Expropriações (artigo 23.º), pelo que o respectivo pagamento teria sempre base na lei. Por outras palavras, para que uma expropriação seja efectuada de acordo com a lei, terá de haver uma justa indemnização. Mais uma vez, não se entende o que está ali a fazer a parte final da norma, se nada acrescenta ao teor da mesma;

Artigo 73.º, n.º 2: “O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação (…) contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, (…)”. Aqui, o conceito de promoção da igualdade de oportunidades já encerra em si a necessidade de superação das desigualdades de todo os tipos, incluindo as económicas, sociais e culturais. Mais uma vez, temos aqui um pleonasmo perfeitamente dispensável, que só serve para tornar desnecessariamente mais longo um artigo já em si bastante farto.

Nesta senda, pergunta-se: e que tal ter em conta estas inocuidades numa próxima revisão constitucional, e suprimi-las da Lei Fundamental? Já para não falar de outras expressões floreadas que por muito idílicas que pareçam ser no papel, têm valor jurídico igual a zero, como dizer que “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto que preserve a intimidade pessoal a privacidade familiar” (n.º 1 do artigo 65.º), ou que “todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender” (n.º 1 do artigo 66.º), ou ainda que “a maternidade e a paternidade constituem valores sociais eminentes(n.º 2 do artigo 68.º). Porque não se limita a Constituição a referir que todos têm direito à habitação, ao ambiente, à paternidade e maternidade, abolindo toda esta caracterização conceptualmente confusa e carregada de subjectividade que nada adiantam do ponto de vista jurídico ou das obrigações do Estado? Não tornaríamos a nossa Constituição bem mais acessível para os cidadãos, dizendo exactamente a mesma coisa mas poupando rios de vocabulário desnecessário?

Estas amostras não resultaram de nenhuma análise exaustiva da Lei Fundamental, mas tão só de uma leitura de relance, quase aleatória, de algumas passagens da Constituição, todas elas encharcadas de expressões como estas. Muitas outras haverá dispersas por outros artigos. Em bom rigor, nem era necessário uma revisão à Constituição para as suprimir, bastaria sacudi-la um bocadinho para que todas elas caíssem por si. Uma Constituição não se quer com 300 artigos, recheada de pleonasmos, redundâncias e lugares comuns. Ela quer-se, ao invés, o mais objectiva e precisa possível, de forma a tornar-se mais acessíveis às pessoas, pois quanto mais próxima estiver dos cidadãos, mais facilmente os direitos fundamentais nela consagrados são compreendidos por eles. Tornar-se-ia, em suma, mais democrática e valorizada.

Assim, incluir limites ao défice na Constituição só serviria para torná-la mais prolixa e atrofiada do que ela já é. De proclamações sem nenhum reflexo prático já ela está saturada. Afinal de contas, não é pelo facto de um determinado principio estar consagrado no papel que se torna, por artes mágicas, exequível. Reserve-se para a Constituição o modelo de organização de Estado e a estipulação de direitos, liberdades e garantias fundamentais. Tudo o resto não se escreva: faça-se.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Criador versus Criatura

“O homem não nasceu para trabalhar, mas para criar” Agostinho da Silva

Somos livres de criar. Mais do que livres, somos omnipotentes e omniscientes em relação à criatura, a obra criada. Porém, esse estado de plena liberdade dura apenas até ao momento em que começamos a pôr em prática a nossa criatividade. Por outras palavras, só somos verdadeiramente livres de criar até ao momento em que começamos a criar. A partir do ponto em que passamos da ideia à acção, a criatura começa a ganhar vida própria, emancipando-se, ganhando forma, cor, cheiro, textura. A dada altura, o criador torna-se refém da sua criatura: a liberdade de criação permanece, mas o criador vê-se confrontado com limites e barreiras que não existiam anteriormente: são elas as regras que ele próprio criou, ou seja, as características que tornam a sua obra numa criatura sua. Eis o drama – e o orgulho – que assiste a todos os criadores: o de não poder domar a criatura depois de a ter criado.

A título de exemplo, não há muito tempo, rebentou uma polémica em torno do lançamento da edição em Blu-Ray da saga cinematográfica Star Wars, em que alguns fãs, enfurecidos com certas alterações introduzidas nos filmes, chegaram a ameaçar boicotar a nova edição da obra de George Lucas. Podemos dizer, então, que o criador já não manda mais na criatura. Não há artista que nunca tenha sentido isso em relação à sua obra. A partir do momento em que ela sai da casca, ganha autonomia, e o controlo que tinha sobre ela, o poder que lhe assistia de a modificar livremente, torna-se cada vez mais ténue. Formalmente a obra é sua, mas materialmente ganhou uma identidade própria que nem ao próprio autor é reconhecida legitimidade para alterar. Neste caso, são os próprios fãs a contestar a autoridade do criador sobre a obra que é a sua. São os próprios fãs a proclamar a independência da criatura face ao criador.

Numa analogia pouco recomendável, pergunto-me se a definição de Deus, por excelência o criador dos criadores, não poderá ser encontrada nesta dicotomia de Criador versus Criatura. No papel de Criador omnipotente, criou o mundo tal como o conhecemos. Este, entretanto, autonomizou-se, tornando-se independente. Agora, funciona de acordo com as suas próprias regras e princípios, sem depender da vontade do seu Criador. A nossa criação tornou-nos livres, e com isso, fizemos Deus nosso refém.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O paradoxo do processo penal

As bases em que o processo penal português está edificado assentam numa (pelo menos aparente) contradição entre duas ideias conceptualmente antagónicas e absolutamente repelentes, que no entanto coexistem entre si na letra da lei. Uma leitura na transversal do nosso código de processo penal de 87 demonstra-nos que a lei actualmente em vigor estabelece como deve ser o processo, porém, age baseada na ideia ou possibilidade do processo que regula vir a ser o extremo oposto daquilo que está estipulado que ele deveria ser.

Assim, por um lado, o procedimento descrito leva-nos a crer que todos aqueles que são levados diante da Justiça são culpados para além de qualquer dúvida razoável, e por isso deverão ser condenados com toda a probabilidade. Neste sentido, o Ministério Público só procede à acusação se houver “indícios suficientes” da prática do crime – artigo 283.º, n.º 1, – o juiz de instrução criminal só profere despacho de pronúncia se se verificarem os mesmos “indícios suficientes” – artigo 308.º, n.º 1, – e a condenação em sede de tribunal judicial deve obedecer aos mesmos critérios. Em termos teóricos, a ideia que trespassa à primeira vista é aquela segundo o qual o processo ideal seria aquele que iniciasse num inquérito e terminasse numa condenação, decorrendo em perfeita harmonia em todas as suas fases, através de meios de prova lícitos e válidos, de um objecto do processo linear e imodificável, de forma a satisfazer as funções do Estado de segurança, justiça e certeza jurídicas.

Só que, por outro lado, apesar de indicar este como o caminho desejável, o processo parte na prática da presunção contrária de que o arguido é inocente até ao fim e de que todo o procedimento é uma arma intrusiva, nefasta e abusiva ao serviço do Estado, e por isso vem apetrechado com todo o tipo de mecanismos ao serviço dos arguidos que vão muito para além das suas indispensáveis garantias de defesa plasmadas no artigo 61.º (entre as quais a impossibilidade de recurso das medidas de coacção no sentido do seu agravamento – artigo 219.º, n.º 1, – a impossibilidade de reprodução ou confrontação em julgamento com declarações anteriormente proferidas – artigo 357.º, n.º 1, – ou a desconsideração das alterações substanciais dos factos descritos na acusação em sede de julgamento, não podendo ser tomados em conta pelo juiz – artigo 359.º, n.º 1, – em sacrifício parcial ou total da verdade material), num excesso de garantismo legal que deixa muitas vezes os agentes de investigação criminal e os próprios juízes de mãos atadas no desenvolvimento da sua acção, à luz da velha ideia, não menos válida, de que o Direito convive melhor com cem criminosos absolvidos do que com um inocente condenado. Afinal, quantas vezes se ouve barafustar contra a condescendência de algumas decisões judiciais que deixam os delinquentes todos cá fora, quando na prática, mesmo que os agentes queiram aplicar medidas mais gravosas, estão impedidos de o fazer devido aos rigorosos critérios legais?

É precisamente à luz desta ideia que se funda o conceito de presunção de inocência, consagrado constitucionalmente no n.º 2 do artigo 32.º da Constituição, um dos pilares fundamentais do Estado de Direito democrático, e que acaba por dar expressão à aparente contradição que indirectamente acompanha todo o código. Diz o código – e a Constituição – que o arguido deve ser tratado como presumível inocente até ser declarado culpado, mas na prática isso encerra um paradoxo incontornável, pois se um indivíduo fosse considerado inocente pelas autoridades que investigam ou pelo juiz de instrução criminal, não chegaria ao tribunal na qualidade de arguido nem lhe estariam ser imputados factos qualificados como crimes. Aliás, a própria definição de arguido (“pessoa determinada em relação à qual haja suspeita fundada da prática do crime” – artigo 58.º, n.º 1, alínea a)) contém uma presunção real em como o próprio é culpado, e não inocente, da prática de um crime.

Poder-se-ia argumentar que esta dicotomia não é exclusiva do processo penal, passando-se o mesmo em todos os outros ramos de Direito, onde para além de serem estabelecidas regras imperativas com vista a salvaguardar o bom funcionamento da vida em sociedade, é indispensável que esses ramos estejam igualmente guarnecidos e preparados para dar resposta em caso de incumprimento dessas mesmas regras, sob pena do Direito se tornar inoperacional, ficando reduzido a um mero código moral de boas condutas. Mas não deixa de ser curioso que no processo penal este paradoxo vá muito mais longe e se torne muito mais personalizado, consistindo basicamente numa prova de força disputada entre o carácter coercivo do Estado e as garantias de defesa do arguido, como o jogo da tracção à corda. Nesta equação, não há espaço para as terceiras partes. Por muito que custe admitir, o papel das vítimas é praticamente irrelevante em comparação com os anteriores, não estando rodeado nem de metade das garantias que estão dispostas ao serviço do arguido.

Dirão que este paradoxo não faz sentido, levando ele próprio a injustiças, mas ele tem as suas razões de ser. Historicamente, a extrema vulnerabilidade daqueles que caíam nas malhas da Justiça foi uma evidência, tendo-se verificado grandes abusos e arbitrariedades por parte das autoridades que a administravam, em face de uma quase ausência dos mais elementares direitos de defesa, e esse desequilíbrio de forças foi determinante na edificação de um novo paradigma, onde, para se evitar cair nas tentações do passado, se tendeu a reforçar em demasia as garantias penais daqueles que são acusados criminalmente, em paralelo com o que sucedeu por exemplo no Direito do Trabalho, em que a vulnerabilidade e o abandono a que estavam sujeitos os trabalhadores por conta de outrem, submetidos a condições de trabalho hoje consideradas desumanas, levaram a um excesso de rigidez e proteccionismo das relações laborais, que não encontram justificação nos tempos actuais.

Em suma, perante a tensão constante e aparentemente insanável a que o processo penal está sujeito, não é de admirar a sua proclamada falta de eficácia. Diria até que funciona razoavelmente bem, tendo em conta os problemas existenciais com que se debate a toda a hora. Esta não é seguramente a causa de todos os males com os quais o processo penal se confronta, mas é bem possível que esteja na origem de muitos deles.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Falando de Livros

“É fácil dizer-se que não é um grande livro. Mas que qualidade lhe faltará? Talvez a de nada acrescentar à nossa visão da vida”. – Virginia Woolf.

Um bom livro é aquele que não acaba quando o terminamos de ler. É um livro que permanece connosco muito depois de termos virado a última página e fechado a contracapa. Um bom livro não se encerra com esses actos nem volta a ir morar para a prateleira poeirenta que o expeliu para as nossas mãos até cair no esquecimento, muito pelo contrário, acompanha-nos pelo resto da vida, está sempre vivo na medida em que voltamos a ele inúmeras vezes sempre que o invocamos voluntária ou involuntariamente na nossa mente, a propósito ou a despropósito do que vamos enfrentando no dia-a-dia. Um bom livro é aquele que passa a fazer parte integrante de nós, das nossas qualidades e defeitos, das nossas experiências, das nossas memórias, é aquele que o leitor acolhe como seu, em virtude da forma como o marcou. É, portanto, um livro que consegue ir mais além da sua função essencial, que é, para todos os efeitos, como qualquer outra forma de arte, o entretenimento, a satisfação de quem o lê proporcionada no momento em que o lê. Assim, um livro supera as suas expectativas quando consegue, seja através da sua temática, escrita, personagens, mensagem, humor, drama, pedagogia, entre outros, colocar o leitor a reflectir para além do momento em que está frente a frente com as suas páginas escritas. Isso é que significa para um leitor identificar-se com um livro, ou, por outras palavras, gostar dele.

Pelo contrário, um mau livro será um livro que acaba antes de nós o terminarmos de ler. Trata-se de um livro que basicamente já está “morto” ainda antes de chegarmos ao fim, de tão aborrecido ou maçador que se tornou para o leitor, donde que o exercício de o ler até à última página só é feito em obediência a um sentido de dever ou de obrigação, revelando-se por vezes de tal forma penoso que somos forçados a desistir de levar tão inglória tarefa até ao fim, deixando-o a meio (da história, pois o livro, enquanto tal, já chegara ao fim).

Entre um bom e um mau livro, temos toda uma vasta gama de livros que, no essencial, cumprem os seus requisitos essenciais, os quais lemos, gostamos, consideramos bons e interessantes no momento em que os lemos, mas que acabam ali mesmo, precisamente no último ponto final da história, quando o fechamos, arrumamos, e passamos ao próximo. São como aquelas pessoas com quem convivemos durante um certo período, que não fazem parte da nossa vida mas que passaram por nós num determinado momento, e assim como passaram, foram-se embora, sem deixar grandes saudades, apenas um resquício da sua passagem.

Esta perspectiva serve naturalmente tanto para a literatura como para qualquer outra expressão do vasto universo artístico – música, cinema, teatro, entre outros. Ao adoptar este critério, estou naturalmente a subscrever uma visão subjectiva da própria Arte, isto é, ela terá tanto ou mais qualidade conforme a sensibilidade de cada um para a apreciar. O que para um é bom, para outro é mau. Mas a Arte não terá um valor próprio que não seja exclusivamente dependente da subjectividade de cada um? Sem dúvida, daí que esta acepção não implique que a Arte não deva ser aferida por parâmetros de estética objectivos. Por exemplo, no que toca à literatura, encontramos estes parâmetros na qualidade da escrita, erros ortográficos e construção frásica, recurso a figuras de estilo, capacidade de criação e desenvolvimento das personagens, narração e descrição, coerência interna da história, desenvolvimento espácio-temporal da acção, etc. Assim, um livro pode ser, do ponto de vista objectivo, qualitativamente bom ou mau, porém, essa qualificação pode não coincidir com a avaliação que cada um faz, de acordo com o seu ponto de vista, do livro e do que representou para si. Até porque, no fundo, quando julgamos uma peça de arte – da mesma forma que acontece quando julgamos qualquer pessoa ou aspecto da nossa vida, – esse julgamento depende acima de tudo de nós próprios, e quase nada do objecto que julgamos, por muito que estejamos convencidos do contrário.

sábado, 12 de novembro de 2011

Rascunhos sobre a Felicidade

A felicidade não é o objectivo de ninguém. Quem diz que o seu principal objectivo para a vida é ser feliz não sabe do que está a falar. Quando falamos em objectivos, estamos a falar de propósitos externos à nossa existência, isto é, em metas que nos propomos a alcançar. Assim, temos o poder de escalonar os objectivos em prioridades, substituir uns por outros, fazê-los depender de planos, conjunturas, prazos ou demais circunstâncias objectivas. E, acima de tudo, temos o poder de simplesmente desistir deles.

Ao invés, a felicidade é tudo menos exterior. Ninguém pode desistir dela, porque a sua procura é inata a cada ser humano, é parte integrante da sua natureza. Cada um a busca à sua maneira e a configura de acordo com os seus padrões, mas nunca deixa de a perseguir. Subjectiva e intemporal, não depende de nenhum condicionalismo externo ou interno. "Todos os homens, sem excepção, procuram ser felizes. Embora por meios diferentes, tendem todos para este fim."

Jean-Paul Sartre dizia que o homem está “condenado a ser livre”, na medida em que o homem não pode escolher não o ser. Eu digo que não, já que nem a nossa liberdade é absoluta ou omnipresente, pois também ela se encontra ao serviço da vontade inexorável que o homem tem em ser feliz. Somos livres nos meios, não nos fins. Se o homem é um ser condenado, será acima de tudo condenado à procura incessante da sua felicidade pessoal, tentativa essa que está presente em toda e qualquer escolha ou acção desenvolvida por nós. Por isso é que, com sabiamente escreve Mohandas Gandhi, “não existe caminho para a felicidade: a felicidade é o caminho”. Se fosse um destino, então bastaria mudar de caminho para abdicarmos de procurar ser felizes. Mas, para o bem e para o mal, não podemos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

As farpas de Portugal

“Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal.” – Eça de Queirós, in Farpas, 1872.

Pode haver uma tendência, em especial nos dias de hoje, para olhar para estas palavras aguçadas de Eça de Queirós e vislumbrar na sua pessoa um visionário que previu a situação actual do país à conta deste excerto da sua crónica mensal da época intitulada Farpas. No entanto, Eça foi tudo menos um visionário, e muito menos podemos encontrar no seu texto algum desígnio profético, muito pelo contrário: Eça de Queirós destacou-se acima de tudo pela forma exímia e realista como lia o mundo à sua volta e o espelhava na sua escrita, captando todos os seus defeitos e virtudes, utilizando o humor e a mordacidade como forma de crítica social, porventura tão bem como nenhuma outra personalidade portuguesa o fez. As suas palavras eram dirigidas exclusivamente às realidades da época em que viveu, e o seu único intuito era retratá-las com as suas verdadeiras cores, por isso o facto de se ajustarem perfeitamente à realidade dos dias de hoje apenas demonstra como o seu diagnóstico não podia estar mais correcto, e como os principais vícios e defeitos do nosso país se mantêm à tona de água ao longo destes últimos 140 anos. Afinal, esta não é a primeira crise que Portugal atravessa, nem será a última. Tal como o próprio autor advogava nos finais do século XIX, “Portugal tem atravessado crises igualmente más: mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura”. O nosso pessimismo e descrença também não são de agora.

Porém, se até temos conseguido sobreviver e ultrapassar as sucessivas crises que nos têm assolado nos últimos séculos, a verdade é que pouco ou nada temos aprendido com elas, e tardamos em mudar de paradigma de uma vez por todas para que os mesmos erros e respectivas consequências não se repitam perpetuamente – nomeadamente o facto de estarmos sempre de mão estendida a mendigar. A fiar nos dados disponibilizados, o valor actual da dívida pública portuguesa é o maior dos últimos 160 anos (superior ao período compreendido entre 1870 e 1925). Pesada herança da Monarquia Constitucional, que apesar de todas as supostas reformas levadas a cabo nos finais do século XIX – reformas que deviam ser tão sérias como as que temos assistido nos últimos anos, – não impediram o Estado português de declarar bancarrota por diversas ocasiões, resultando em crises que nunca foram totalmente resolvidas por aquele regime, contribuindo em última instância para a queda da Monarquia e a implantação da República. No entanto, os problemas de tesouraria não encontraram solução na mudança do regime, nem na mudança da bandeira, ou do hino, ou da moeda, tendo em conta que o tal paradigma se manteve inalterável, levando a que os mesmos vícios de indignidade política e ladroagem pública tenham permanecido ou até se agravado. O facto de nos ter sido recusado um empréstimo por parte da então Sociedade das Nações com base no argumento de que o país não era cumpridor em face das suas obrigações também é bastante ilustrativo de como a nossa fama de gastadores e maus pagadores também não é de agora.

Para cúmulo dos cúmulos, a única pessoa que resolveu esse problema do endividamento e de descontrolo das contas públicas de forma eficaz foi um certo individuo chamado António de Oliveira Salazar – a um preço muito elevado, como sabemos, e que nos devia fazer desejar não ter que voltar a trilhar esse percurso. E foram necessários mais de quarenta anos após a subida ao poder do vencedor indesejado do concurso “Grandes Portugueses” para que Portugal encontrasse finalmente um modelo politico, social e económico minimamente sustentável que o levasse a crescer integrado numa comunidade económica europeia e a surgir no mapa do mundo enquanto Estado de Direito democrático. Sim, tudo isso está certo, mas uma vez mais a mudança de regime não resultou numa mudança de paradigma, tendo em conta que nos últimos trinta e sete anos Portugal já teve de recorrer a três empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (em 1977, 1982 e 2011), por se revelar uma vez mais incompetente na gestão das suas contas públicas. Se as duas primeiras “visitas” do FMI ainda são compreensíveis (o que não significa desculpáveis) à luz dos desvarios e excessos do período pós-revolução, este terceiro pedido de resgate dever-nos-ia deixar a todos de face enterrada nas palmas da mão de vergonha e fazer-nos a todos abrir bem os olhos, pois em condições normais seria completamente absurdo e injustificável chegarmos a este estado nas condições em que nos encontramos.

Se o problema do financiamento do nosso Estado não é de agora, e se as crises não nos largam na última centena e meia de anos (pelo menos), a verdade é que havia sempre razões válidas subjacentes a cada uma delas, pois o que tem marcado a nossa Historia recente é a instabilidade política e social, quer devido à guerra civil, às revoluções sempre turbulentas, à implementação de novos regimes, à nossa periferia e isolamento, à fraca competitividade da nossa economia, etc. Porém, todas estas razões se desvanecem quando somos confrontados com este último empréstimo contraído: ninguém imaginaria que num sistema estável como o nosso, em que estamos incorporados há vinte e cinco anos numa união política, económica e monetária, em que recebemos avultadas verbas para investir no nosso desenvolvimento, o caminho fosse outro que não o do crescimento em clima de paz, solidariedade e prosperidade, como raras vezes nos encontrámos ao longo da História. Como é possível termos chegado a este ponto? Olhando para o nosso percurso histórico, não é difícil chegar à conclusão que o maior problema reside em nós próprios. Naturalmente que a União Europeia e a zona euro em concreto também partilham o fardo do nosso fracasso, e ninguém nega que fomos afectados nos anos mais recentes, tal como outros países, por condicionalismos exteriores, porém, muito antes desta crise internacional e desta Europa já nós nos debatíamos com as mesmas questões, sem sucesso. E, na 3ª República, perdemos uma vez mais a oportunidade de mudar de paradigma. Beneficiámos de excelentes condições de desenvolvimento, mas voltámos a cair nos mesmos erros e desvarios. E, mais do que isso, neste caso concreto estamos num domínio que extravasa a mera gestão danosa ou incompetente. A única conclusão plausível para o estado em que nos encontramos é que houve, de facto, na 3ª República portuguesa, gestão criminosa dos dinheiros públicos. Não na ordem das centenas ou dos milhares, mas sim na ordem dos milhões. Não duvido que os poucos escândalos financeiros de que temos conhecimento são apenas uma gota de água no oceano, e não é preciso ser demasiado astuto para compreender que não sabemos, nem sonhamos, o saque de que os sucessivos orçamentos de Estado foram alvo. E tornámo-nos, uma vez mais, incapazes e inoperantes na resolução dos nossos próprios problemas. Este pedido de resgate foi – ou devia ser – uma machadada no nosso orgulho e prestígio interno e externo. E foi também necessário, por muito que custe admitir. Trata-se de uma consequência de erros próprios, não somente de hoje ou de ontem, mas dos últimos séculos. Não é contra ele nem contra as suas imposições que devemos bramar. É contra nos próprios, a nossa própria irresponsabilidade, pois fomos nós que nos colocámos nesta situação.

O que seria necessário neste momento acima de tudo era uma mudança de paradigma, para que finde a mesma atitude indigna para com os recursos públicos que tem sido transversal a todos os regimes. De nada adianta sanar as contas públicas se os mesmos vícios se mantiverem, isto é, a mesma “indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão”. Essa receita é a garantia em como cairemos novamente no mesmo buraco. Mais do que as pessoas, o problema em Portugal é assim um problema de mentalidade. Seria desejável que passados 140 anos das Farpas de Eça deixássemos definitivamente de nos identificar de forma cristalina com as suas definições, pois era sinal que tínhamos saído da espiral cíclica em que circulamos. É preciso, isso sim, mudar a nossa atitude perante o Estado, exigirmos mais de nós próprios enquanto cidadãos e por conseguinte do próprio Estado. Devemos começar a comportarmo-nos como pais do Estado, e não como seus filhos. Temos de tomar conta dele ao invés de esperar que seja ele a tomar conta de nós, que sejam outros a decidir por nós, a agir por nós. Se elevarmos os nossos padrões de exigência e responsabilidade enquanto cidadãos, então o Estado e as suas instituições serão levadas a comportar-se com mais rigor e seriedade. A iniciativa tem assim que partir de nós, não do Estado. Tal como o próprio Eça diagnosticou,“diz-se que em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclusão de que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser acautelados, indignos de uma larga liberdade e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do governo e de volver constantemente as mãos e os olhos para ele, como para uma Providência sempre presente” – visionário ou realista?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A herança fatal... do jornalismo

Quem vê a introdução do vídeo desta reportagem da TVI é capaz de não compreender à primeira vista se o mesmo se refere à notícia da acusação, nos termos apresentados pelo Ministério Público brasileiro, de Duarte Lima pela morte da Rosalina Feteira que tem marcado a actualidade, ou se se trata de uma campanha publicitária para uma qualquer produção fictícia nacional, a “nova novela da sua noite” a estrear em horário nobre no próximo mês. “Estas são as principais personagens de uma trama onde há morte, dinheiro, muito dinheiro, há casamentos e traições, há crimes por resolver. Na origem da trama está uma herança, uma herança fatal que já fez uma vítima”. Da mesma forma, a música que acompanha o vídeo, típica de um thriller de acção, suspense, intriga e mistério, quase fará acreditar se não estaremos antes perante o trailler de um novo filme de Hollywood, contendo no seu elenco Bruce Willis, Silvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger.

Nada disso. Estamos sim a falar de um caso sério, resultado de um homicídio, envolvendo cidadãos portugueses e que está agora nas mãos da Justiça brasileira e portuguesa. Um caso, portanto, que está à espera de uma decisão judicial, onde se jogam direitos fundamentais das pessoas directamente envolvidas e onde prima um interesse público em punir os responsáveis e absolver os inocentes. Perante estes factos, só resta lamentar a forma descabida – para não dizer vergonhosa – como um órgão de comunicação social nacional decide abordar o tema, apresentando-o aos telespectadores como um espectáculo a não perder numa televisão perto de si. Assim se transforma um caso de polícia num caso de circo, substituindo todo o rigor, racionalidade e isenção que deve caracterizar o jornalismo de informação, por uma dose de sensacionalismo e emotividade com vista a fomentar um clima de “drama, tragédia e horror” que ornamenta grande parte das notícias que constituem a espuma do quotidiano.

É triste, mas reflecte aquilo em que se tornou grande parte do nosso jornalismo na actualidade. A notícia, para merecer a atenção dos nossos ilustres telejornais, tem de ser espectaculosa, polémica, chocante, brutal. Quantos mais ingredientes destes contiver, mais mediática se tornará. O seu valor informativo é relegado para segundo plano, já que a preocupação fundamental do jornalismo em geral deixou de ser informar para passar a ser divertir. E a televisão, ainda hoje o rosto do jornalismo, é sinónimo de diversão e de audiências. Por isso, as notícias deixaram de ser dirigidas à razão dos telespectadores para passarem a ir endereçadas às suas emoções; por isso, todas as notícias são transformadas em novelas e literatura de cordel; por isso, as más notícias, que apelam melhor às emoções fortes, tendem a prevalecer sobre as boas; por isso, em qualquer notícia, entrevista, debate ou reportagem o que serve de destaque não é o ponto que sintetiza a informação ou a mensagem, mas sim aquela citação mais polémica, mais bombástica, muitas vezes retirada de contexto abusivamente, ganhando um significado totalmente diferente do original.

E assim se despreza a enorme responsabilidade que constitui a divulgação de uma notícia. Nesse aspecto, um jornalista deveria estar acima do comum dos mortais, caso contrário a sua profissão - uma das mais nobres que pode haver - deixaria de ter razão de existir. E um jornalista deveria saber que, na notícia, interessa tanto o seu conteúdo como a forma como é dada, e que uma notícia será tão menos rigorosa, transparente, neutra, imparcial e clarividente quanto maior for a promiscuidade entre o seu valor factual e informativo e o sensacionalismo proveniente do desejo de despertar sentimentos e convicções nos destinatários da mesma. A função do jornalismo não é essa, e a apropriação que faz da subjectividade inerente às notícias é ilegítima. Esse julgamento pertence às pessoas, mas o que se assiste constantemente é a uma manipulação tácita e a uma tentativa despercebida de moldar e influenciar sentimentos e consciências através da forma como as notícias são transmitidas.

Poder-se-á dizer que o jornalismo procura apenas ir ao encontro do que as pessoas querem ver e ouvir, tendo de se adaptar às circunstâncias do tempo para sobreviver, pois é desse modo que se geram audiências. Nesse caso, o jornalismo viverá então da herança fatal que recebeu da sociedade em que se insere, onde tudo é fútil, efémero e passageiro, e onde as novidades se mastigam exaustivamente durante um curto período de tempo, para depois caírem no esquecimento como se nunca tivessem existido. Daí as noticias não serem dadas de forma consequente, e o seu valor não ser o factual, estando ao invés dependente do interesse momentâneo que possa ter para o público.

Mas nem isso serve de desculpa. A ser verdade que foi nisso que a sociedade se transformou, também não é menos certo que a comunicação social se tornou nas últimas décadas um dos seus principais poderes, determinante na sua formação e identidade. Não se pode, pois, descartar das responsabilidades, positivas e negativas, que teve e tem na sociedade tal como ela é hoje. Se a sociedade é como é, o poder para a mudar passa também pelas suas mãos. Assim, a comunicação social é livre de seguir o caminho do sensacionalismo e da exploração das emoções baratas, mas nesse caso não se chame jornalismo a reportagens como esta. Porque se a sua preocupação essencial já não é informar da forma mais correcta e independente possível, então o fim pretendido já não serve a função primordial que caracteriza o jornalismo de informação: Formar e Informar.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A força que as Palavras (não) têm

Por todo o lado se ouve falar com frequência na Força das Palavras. Alguns descrevem-na até como superior à força física, das acções e das armas, tendo em conta o impacto avassalador que podem provocar, e a profundidade com que nos podem tocar cá dentro. Dizem que as palavras voam mais alto do que os pássaros e ferem mais do que punhais, que têm a leveza do vento e a força da tempestade”. Chegam a ser tão fortes que conseguem dar corda às ideias, derrubar barreiras, salvar vidas e até transformar o mundo.

As palavras são de facto capazes de tudo isso. Mas elas não têm força. Na verdade, não têm nada. São ocas, vazias por dentro. Isoladas, são como breves sombras, conceitos vagos e indeterminados sem qualquer sentido para além do gráfico ou do fonético. A força delas reside no conteúdo, mas o conteúdo – ou seja, o significado – não lhes pertence inatamente, ele é apenas emprestado por nós.

As palavras nasceram para serem preenchidas. Elas são as roupas que atribuímos ao pensamento, que ao fazer o seu percurso até ao momento em que é exprimido, não deixa de passar pelo guarda-fato, que o corporiza e lhe dá forma. As palavras funcionam, assim, como o invólucro em que o pensamento vai embrulhado, são a casca da mensagem que queremos transmitir, a sua face visível para quem está de fora. Por isso dizemos que a força reside nelas, quando na verdade o seu recheio é ditado pela nossa subjectividade: a mesma palavra, a mesma frase, o mesmo discurso, ganham um significado diferente conforme quem os profere e quem os ouve, porque a força das palavras provém exclusivamente da entoação e da convicção que imprimimos, da forma como somos capazes de as manejar e arremessar, e da conotação e do sentido que cada um lhes dá ou reconhece.

As palavras não têm força própria. São neutras. Dizer isto não é diminui-las, nem ao seu valor, muito pelo contrário: se formos a ver, a sua beleza reside precisamente na sua neutralidade e na sua subjectividade, e daí o seu carácter camaleónico e a plasticidade que têm para poderem ser tudo o que nós quisermos. Nós é que as tornamos grandes ou pequenas, gordas ou magras, fortes ou fracas, felizes ou infelizes, suaves ou dolorosas. Considerá-las como tendo força própria, seria amarrá-las aos seus significados, tornando-as mais rígidas, e consequentemente, menos ágeis e mais pobres. Seria assim se elas fossem um fim em si mesmas, mas são apenas um meio, e como tal, são mais livres. A liberdade é a única qualidade que têm de inato.

domingo, 23 de outubro de 2011

ProblemÉtica da República... e não só


“A Ética não vive nas formas de governo. A Ética nasce e morre com o indivíduo. O homem é bom porque é bom. Não porque é republicano.”

Este mote do discurso do deputado Adolfo Mesquita Nunes à Assembleia da República a propósito da proclamada Ética Republicana, ou se quisermos, da ProblemÉtica da República, consegue tocar de forma precisa num ponto fulcral de um certo tipo de mentalidade que flui nas veias da nossa sociedade. As pessoas é que criam, formam e constituem um regime, e o código de valores por este recebido é o dos seus constituintes; as pessoas é que determinam o respectivo sistema ou modelo político e social em que se organizam, e a natureza deste é moldada em função dos respectivos indivíduos, não o inverso. O republicanismo é, pois, uma forma de governo, nada mais. Um indivíduo não é qualificável em função da sua ideologia, e o facto de ser republicano não o investe numa superioridade moral ou ética em relação aos partidários de regimes diversos, nem os dota de outras qualidades pessoais acrescidas. “A República qualifica a forma de governo. É a liberdade que nos qualifica como cidadãos e nos coloca centralmente face ao poder político”, acrescenta o mesmo deputado mais à frente.

Numa outra dimensão da mesma questão, poder-se-ia dizer que este raciocínio se deveria aplicar por igual às convicções ideológicas em geral. E este é um dos aspectos que eu considero mais criticável na área política da Esquerda, indissociável do republicanismo português, e sempre pronta a erguer o estandarte da República como seu. Para a Esquerda, um homem, independentemente do seu carácter, será bom pelo simples facto de ser de Esquerda, e as acções levadas a cabo na luta cívica e política que travar, são sempre norteadas por padrões morais e éticos mais elevados. E da pertença a essa família ideológica advirá a autoridade para falar sempre em nome do povo, e para reclamar como exclusivamente seus os ideais de verdade, liberdade, igualdade, ou justiça social. Um homem de esquerda é aquele que sabe sempre o que é melhor para o povo, melhor até do que o próprio povo que diz representar.

Este pensamento reflecte-se de diferentes formas no organismo vivo da nossa sociedade. Por exemplo, através da ideia de que a Esquerda tem sempre a maioria da população na sua retaguarda, sendo os seus únicos legítimos representantes e porta-vozes, precisamente por serem os únicos com moral para falar em nome dela. A ideia de que o povo é património que lhe pertence naturalmente, partilhando sempre das suas convicções, porque, como toda a gente sabe, o povo é de esquerda, mesmo quando não vota maioritariamente nos partidos à esquerda. Independentemente da representação política, a maioria social (ou seja, da sociedade) nunca deixa de ser de esquerda, e por isso as assembleias populares, constituídas por indivíduos que se auto-investem na autoridade de representar o povo, são mais legítimas do que as assembleias eleitorais. Porquê? Porque os valores de Esquerda são sempre os mais puros, as suas causas, as mais justas, e as suas lutas obedecem sempre aos mais nobres princípios. E daí o sentimento de que quem é de esquerda é bom por natureza, mais ético, mais fraterno, tem mais moral e humanidade do que qualquer outro indivíduo.

Outro reflexo desta forma de pensar é a capacidade de olharmos para pessoas cujo nome se escreve na História pelas piores razões sem nunca nos conseguirmos livrar daquele filtro romanceado trazido pelo conceito de revolucionário, e sem nunca deixar de ter um sentimento de identificação pelas suas lutas, uma certa simpatia ou mesmo nostalgia, tendo em conta que nos são apresentados como modelos que até nos deviam inspirar pelo seu idealismo. Pessoas como Lenine, Estaline, Che, Fidel, Mao, ou mesmo Kadhafi, responsáveis por acções que em qualquer outra parte do mundo seriam descritos como actos criminosos, no que a eles diz respeito não deixam de ser vistos como meros erros de percurso, encontrando sempre justificação na causa maior em nome da qual dizem agir. Assim nascem os carinhosos apelidos de heróis revolucionários, porque todos eles são de esquerda, e portanto, bons por natureza, e portanto, irrepreensíveis do ponto de vista moral.

Acontece que a Ética do povo não está adstrita a nenhuma ideologia ou forma de governo. A ética, tal como a moral, é pessoal e intransmissível, inerente ao código de valores de cada um. É antes na liberdade individual que os regimes se devem ancorar - e já agora, também as ideologias, se quiserem realmente estar ao serviço dos homens. Sem dúvida, uma excelente mensagem para se passar na Assembleia da República a propósito das comemorações da implantação da República.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Deceção" ortográfica

“A minha pátria é a língua portuguesa” – Fernando Pessoa/ Bernardo Soares – Livro do Desassossego
A dimensão de uma pátria não se mede pelo tamanho do seu território, mas sim pelos elementos identificativos de uma nação que ela contém. Esses elementos podem ser materiais ou imateriais, sendo que é nestes últimos que reside primacialmente o carácter mais ou menos duradouro de uma pátria, pois é através dos mesmos – Língua, História, Arte, Cultura – que ela se propaga e perpetua no tempo. Já a ideia preconizada por Pessoa de um Quinto Império português como um Império Espiritual, marcado pela busca “de uma índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos”, considerava a pátria precisamente nesta acepção, já que “todo o império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando”. Neste campo, a língua portuguesa pode ser justamente considerada o maior legado de Portugal no mundo, ocupando um lugar de relevantíssimo destaque entre o seu património imaterial. Falada por mais de 250 milhões de pessoas espalhadas por cinco continentes, podemos concluir que foi responsável pelo alargamento e enriquecimento das fronteiras da nossa pátria, e que, mesmo nos dias de hoje, continua em expansão, segundo as estimativas.
Tudo isto a propósito do documento acolhido entre nós através da Resolução da Assembleia da República n.º 26/91, mais conhecido por Acordo Ortográfico, que teve como resultado uma deturpação na forma de ler e escrever a língua portuguesa, amputando-a de algumas das suas premissas essenciais. E antes de começarem a ver as sombras de mais um velho do Restelo preso ao passado porque sim, devo dizer que ninguém aqui é apologista da imutabilidade de uma língua. Afinal, ela evolui da mesma forma que as sociedades. A cada dia modifica-se, com novo vocabulário a entrar, a sair, a cair em desuso ou até a ressurgir, com expressões idiomáticas a ganharem nova pele, despindo-se dos antigos significados; e ainda com os estrangeirismos e o calão, cada vez mais frequentes. Cada novo interlocutor de uma língua dá-lhe um cunho pessoal, atribuindo-lhe uma nova dimensão. E por isso precisa de ser regularmente actualizada, de forma a que livros, dicionários, e principalmente cada um de nós acompanhe o seu trajecto.
O que está de facto errado neste processo é a adopção de uma nova ortografia por intermédio de um decreto – e comecemos por despachar já a questão jurídica: a instituição de um Acordo Ortográfico por imposição de um acto normativo, mesmo dotado de jus imperii, entra num domínio que à partida não lhe pertence. Como vimos, o processo de evolução da língua é conformado pelo natural curso de água da evolução dos povos e sociedades, contando com a contribuição de cada um de nós. Logo, um Acordo que vise alterar de forma substantiva a língua oficial de um Estado, um dos seus símbolos nacionais de acordo com a própria Constituição (art. 11.º), mesmo tendo sido negociado por uma prestigiada academia de ciências, aprovado por uma assembleia nacional, e ratificado por decreto presidencial, carece de legitimidade jurídica. A única forma de a adquirir, a meu ver, seria através de referendo nacional. Afinal, cada um de nós é um (re)inventor da língua portuguesa, um fabricante e utilizador das suas peças – as palavras – e cada um de nós contribui para a sua difusão. Assim, só se a maioria dos portugueses manifestasse expressamente a sua concordância com a implementação do novo Acordo Ortográfico é que, à luz do princípio democrático, o mesmo poderia vigorar legitimamente entre nós.
Depois há a questão de fundo substantiva: um acordo que como este elaborado na secretaria, não podia ter outro desfecho que não fosse a adulteração da própria língua, levando naturalmente a resultados absurdos como aqueles que estão à vista. Parece que se esqueceram que a evolução linguística acompanha não só a ortografia como também a fonética, pelo que mexer numa pensando que não terá reflexos na outra é não compreender o funcionamento de uma língua. Tomemos como exemplo a controversa questão da queda das consoantes ditas mudas, que de mudas nada têm. Em palavras como acção, colecção, espectáculo, afecto, objectivo, projecto, o c dito mudo, porque “não se lê”, influi na forma como se pronuncia a palavra, indicando que se deve abrir o som da vogal correspondente à respectiva sílaba. O mesmo sucede com o p em adopção, percepção, recepção ou excepcional. A sua função não é meramente decorativa, como devia estar à vista de todos, e o seu propósito obedece à lógica da língua e formação das palavras.
Mas no Brasil não caíram as consoantes mudas? Sim, caíram. E porquê? Porque o português do Brasil evoluiu desse modo, principalmente ao nível da fonética, que dispensa o papel exercido por esses c e p, já que a tendência natural na pronúncia das palavras é para abrir o som das respectivas vogais. E assim nasceram a ação, coleção, adoção, ou afeto. Não é português mal escrito, é antes um português fiel à fonética do local onde é falado. Não se trata, pois, aqui, de pôr os portugueses a falar como os brasileiros ou os brasileiros a falar como os portugueses. É tão absurdo fazer cair as consoantes mudas do português de Portugal como seria repristiná-las para o léxico do português do Brasil. A diferente ortografia faz parte da riqueza do português enquanto língua, que se expandiu a novos povos e culturas, passando a fazer parte integrante dos mesmos. A própria língua portuguesa acolheu no seu seio influências latinas, árabes, gregas, visigodas, e mais tarde, mormente nos dias de hoje, anglo-saxónicas. Assim, o português do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Cabo verde, de São Tomé, da Guiné-Bissau, e de Timor-Leste não deve ser valorado por aquilo que tem de igual ao português de Portugal, mas sim por tudo aquilo que trouxe de diferente à nossa língua, que é também a deles. Porém, imbuído em nobres objectivos, o Acordo Ortográfico pretendeu uniformizar a ortografia da língua portuguesa para facilitar a interacção entre os diversos intervenientes oriundos dos vários países de língua portuguesa, e não colocar entraves a quem com ela contacta de fora. Ao que parece, só através do novo Acordo é que um português se entende com um brasileiro, ou um angolano, ou um cabo-verdiano.
Se o objectivo era facilitar a grafia da língua portuguesa, o resultado alcançado foi tê-la tornado mais confusa e incongruente, violando mesmo algumas das suas regras basilares. É pena. Não era de excluir que houvesse um diálogo constante entre os responsáveis dos diversos países de língua oficial portuguesa com vista à clarificação das suas regras basilares e núcleo essencial, e a partir dessa base serem feitas alterações ou actualizações com vista a manter a sua identidade no mundo. Mas uma coisa é defender a unidade da língua, outra completamente diferente é defender a sua uniformidade. E se a uniformidade era o objectivo, falhou redondamente, pois em muitos aspectos a grafia nos diferentes países permanecerá com as suas diferenças e qualidades próprias.
Mas parece que, apesar das ondas que se fizeram sentir, o novo Acordo foi acolhido acriticamente por todos os órgãos de comunicação social, tendo já começado a ser introduzido no ensino do português nas escolas. E onde muitos aplaudem as vantagens de passarmos a ter uma ortografia unificada, eu vejo um processo castrador e empobrecedor da nossa língua, uma deceção ortográfica. A nossa pátria ficou, assim, mais pobre com o novo Acordo Ortográfico.

domingo, 16 de outubro de 2011

Namasté!


Com esta saudação é oficialmente inaugurado um novo espaço virtual blogosférico. Sem fitas para cortar, sem discursos para aplaudir, sem comitivas a acompanhar, sem jornalistas para fotografar ou flashes para colorir. Na prática, sem nenhuma razão de ser. Nenhum sentido, nenhum tema, nenhuma causa. Apenas com palavras. E vontade de empregá-las, e a partir delas, começar a construir algo. Demasiado ambicioso? Talvez, mas enquanto o cume estiver à vista, nenhuma montanha será alta de mais, e saberemos sempre qual a direcção a tomar. Até porque “não há um caminho: faz-se o caminho ao andar”.

E por isso começo por me curvar com reverência e a todos saudar:

Namasté!